Os ambientalistas da Quercus querem sensibilizar o sector da construção para a necessidade de desmantelar os edifícios velhos, em vez de demolir, para aproveitar e reutilizar os materiais, protegendo a natureza de extracções de matérias primas.
Num projecto em que a associação de defesa do ambiente se associa ao Portal da Construção Sustentável, o objectivo é tentar provar que, embora desmantelar um edifício em vez de o demolir, separar as portas e as fechaduras, por exemplo, possa dar mais algum trabalho aos construtores, estas acções “de certeza vão possibilitar uma maior reutilização de todos os materiais”, disse hoje à agência Lusa Aline Guerreiro, da Quercus.
Este é um dos sectores que mais materiais vai buscar à natureza, com uma baixa integração de produtos usados, como madeira ou ferro, a que se junta os impactos da produção de resíduos, durante o processo de construção e no fim da vida útil do edifício.
Aquando da aprovação pelo Governo do plano para a economia circular, em novembro de 2017, o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes indicou que um dos sectores mais atrasados neste aspecto é o da construção, que “em toda a economia é o sector de mais baixa eficiência material”.
Está em causa a transição de uma economia linear, em que são extraídos recursos à natureza, usados e deitados fora, para uma economia circular, com base na redução do uso dos materiais primários e na aposta na reciclagem e reutilização de produtos.
A ambientalista do grupo de Trabalho da Construção Sustentável, da Quercus, salientou que a opção por desmantelar os edifícios “permite reutilizar mais materiais do que aqueles que têm vindo a ser usados” pois são retirados produtos separados, de cada tipo, e em melhores condições.
“Podemos reutilizá-los como estão, sem modificações, sem precisar consumir mais matéria prima ou energia para fazer novos”, especificou.
Para realçar a importância desta mudança, Aline Guerreiro cita um estudo da Universidade da Florida, nos Estados Unidos, em que foram desmantelados vários edifícios e a taxa de reutilização dos materiais está entre 50 e 90%.
No projecto, será analisado um edifício que terá como destino a implosão e outro que será reabilitado, apontando as diferenças no reaproveitamento de materiais.
Um dos imóveis é o edifício Coutinho, em Viana do Castelo, com implosão prevista há muitos anos, para analisar os materiais que poderiam ser usados, se se optasse por desmantelar.
O outro é um edifício da Quercus, situado em Castelo Branco, numa área de reserva natural, que será reabilitado e transformado num projecto de turismo natureza, reutilizando “o mais possível todos os materiais que lá existem”, disse Aline Guerreiro.
“Vamos perceber quais as vantagens de uma reabilitação a reaproveitar e reutilizar os materiais existentes”, resumiu a ambientalista, referindo estimativas a apontar que 75% de tudo o que é extraído da natureza é da responsabilidade do sector da construção.
Actualmente, a lei obriga a integração de 5% de material reciclado nas obras públicas, exigência que “é cumprida” com o enchimento das camadas de enchimento de bases onde vai ser construído o edifício, por baixo dos pavimentos, acrescentou.
Uma directiva europeia fixa para 2020 uma meta de 70% de reutilização, reciclagem e valorização de materiais na construção.
