Aumentar cada vez mais a satisfação no parto das mulheres, garantindo-lhes não apenas um parto sem dor, mas um acompanhamento mais humano, é um desfio que se coloca também ao Serviço Regional de Saúde, que hoje realizou uma conferência integrada nas comemorações do 20º aniversário da Analgesia de Parto, praticada através do Serviço de Anestesia do SESARAM. A melhoria passa por um seguimento ao longo de todo o trabalho de parto, até ao nascimento do bebé, mas que esbarra novamente na falta de recursos humanos. O ideal é ter um anestesista com a parturiente a partir do momento em que a dor se torna incomodativa, uma presença que garante não apenas que a mulher dá à luz sem dor, mas que toda a equipa trabalha em maior segurança e tranquilidade. No ano passado, quase 82% das mulheres que pariram receberam epidural, um valor dentro da média nacional nesta área.
Passadas suas décadas, são hoje poucas as mulheres que recusam a injecção para tirar as dores do parto. “Se no início tínhamos mulheres que estavam renitentes e não queriam fazer a epidural, é bem raro hoje em dia alguém recuar e dizer que não quer epidural, que quer ter o parto natural”, revelou Raquel Tranquada. A médica assume que há um caminho a percorrer, em termos de técnica, de melhoria da qualidade e de acompanhamento pelo pai ou outra pessoa da preferência da futura mãe, “mas é tudo inerente também ao espaço físico, aos recursos humanos que dispomos”.
Helena Paula apresentou os números. “Chegar aos 100%, como se disse anteriormente, é extremamente difícil, mas os 81,8% é muitíssimo bom”. Para as mulheres que não podem fazer epidural, há alternativas farmacológicas.
A médica anestesista fala de mitos que continuam presentes, não tanto como no passado, informações erradas que criam dúvidas na hora de parir, como complicações em termos de problemas nas costas e alterações na coluna. Aos poucos vão sendo ultrapassados. Mais do que por medo, actualmente é porque algumas mães querem experimentar o parto natural que se recusam a levar epidural, contou. Há pessoas que querem experimentar a dor, algumas acabam por mudar de ideias na fase final.
Filipa Lança foi outra das convidadas, fez o enquadramento a nível nacional. A médica do Hospital Santa Maria, em Lisboa, presidente da secção de Anestesiologia para Obstetrícia da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, disse que o Funchal está muito bem no campo da anestesiologia de parto. O Serviço “atingiu uma qualidade bastante elevada e portanto penso que é mais uma dinamização de multidisciplinaridade, que é aquilo também que nós estamos também a tentar fazer nos outros hospitais”. No fundo, o que pretendem é que o anestesista seja um elemento da equipa do parto e não apenas alguém que entra, administra uma injecção e vai embora. “(...) Nós responsabilizamo-nos pela segurança da grávida. Não é só tirar a dor do parto, é tratar uma náusea e um vómito, acautelar uma pré-eclâmpsia, o anestesiologista trabalha em comunhão logo directa com o obstetra para garantir que a não tem um mau desfecho... a minha vinda aqui é uma chamada de alerta que se nós queremos manter os nossos cuidados, os nossos ‘outcomes’, nos cuidados perinatais na grávida, no neonatal, nos valores tão de excelência que nós atingimos nestes últimos anos, temos de começar a trabalhar de uma forma em que o anestesiologista está perfeitamente integrado dentro da equipa da sala de partos. Ou seja, não pode ter aquele anestesiologista que está fora, na urgência ou a fazer outra coisa qualquer e de repente é chamado para ir fazer uma epidoral”, alertou.
Mara Vieira, coordenadora da área de Obstetrícia no Serviço de Anestesiologia do SESARAM, organizou o evento. Uma reunião multidisciplinar ligada aos profissionais envolvidos na maternidade para discutir temas ligados à prestação de cuidados à grávida.
Tecnicamente a evolução é grande. Por outro lado, há as expectativas da parturiente que têm de acompanhar. “Ela tem outro tipo de expectativas”, disse a médica. “Ela quer segurança, obviamente, ela quer o seu parto seguro e isso traz satisfação. Quer analgesia, quer um parto sem dor, isso sem dúvida e nós podemos oferecer, mas quer também humanização de serviços. E é neste caminho que nós temos que caminhar”.
Humanizar passa por reduzir a parte mais burocrática, a monitorização e a segurança a 100%, é preciso encontrar um meio-termo entre estes dois caminhos. E passa também por mais recursos humanos, minimizada pelo empenho dos que lá estão. “Está-me a falar de falta de recursos humanos, é verdade, nós temos falta. Como é que se ultrapassa? Com mais contratações, com mais dinheiro mas isso já é um problema de administrativos, não passa muito por nós”. Neste momento o SESARAM tem na 15 anestesiologista na equipa de Analgesia de Parto. O grupo é de 20 mas nem todos trabalham na obstetrícia.

