
David Cameron e o partido conservador são os padrastos do Brexit. Porque o pai é o AKIP a agremiação política independentista. O então inquilino da residência oficial em Downing Street aliou-se a este grupo nacionalista para garantir a reeleição e, em troca, aquele agrupamento propôs a convocação de um referendo que decidisse se os eleitores preferiam ficar ou deixar a União Europeia.
Defendiam a recuperação da soberania e o controlo das suas fronteiras, muito por causa dos migrantes e refugiados.
Em junho de 2016 a consulta popular aconteceu e o “sim” levou vantagem, de 51,9% para 48,1%. Apesar disso Cameron sai de cena, por desavenças internas, e surge em palco Theresa May.
Fruto da onda populista vigente no Mundo, o Reino Unido cedeu e caíu no que pode ter sido um grande poço escuso e escuro. Um labirinto cheio de “fog” e surpresas. Provavelmente pouco agradáveis.
Respeitar o decidido em referendo, regra básica da democracia, é da mais elementar sensatez. Se os participantes na consulta popular o fizeram bem esclarecidos, caso contrário terá sido um “engana povo” que mais cedo ou mais tarde trará perversos efeitos políticos nos protagonistas do tema levado a votos.
Parto do princípio que para esta matéria os que foram às urnas estavam suficientemente informados e votaram em consciência. Assumirão, portanto, as consequências da sua tomada de posição. Porque este abandono, para mais se for abrupto, não se apresenta de fácil digestão.
Entretanto, foi necessário chegar a um entendimento entre a Comissão e os britânicos desavindos. Que tardou e parecia que não viria a acontecer. Até que surge fumo branco e a Primeira-Ministra anuncia o fim das negociações com a combinação final alcançada. Só que esse convénio é uma espécie de adiamento de quase tudo o que é relevante para dois anos depois, no dizer dos entendidos em política internacional. E, sendo assim, agrada mais à UE que aos adeptos ingleses da separação pura e dura. Mesmo que litigiosa.
A líder do governo depara-se agora com um parlamento duplamente hostil. Por um lado, os trabalhistas que se opunham ao divórcio, por outro, metade da bancada dos conservadores, revoltosos e discordantes, porque apoiantes da ala radical a favor da saída sem hesitações.
Muito possivelmente o pacto acertado não passará. Terá Theresa May plano B? Ou simplesmente está seguindo o tortuoso caminho que conduzirá à sua inevitável demissão?
Nesse caso as circunstâncias político-partidárias, com forte probabilidade, obrigarão a novas conversações para outro acordo. A disponibilidade de Bruxelas para esse efeito deve ser nenhuma ou perto disso. O que faz prever um impasse com difícil perspectiva de desenlace.
Poderá surgir então a hipótese de novo referendo. No que seria uma “Second Round”. Que, ou reassumirá a ruptura no que se poderia denominar de “Double Brexit” (e voltarão as negociações inconclusivas e mais difíceis), ou regressa tudo ao “antes”, “quartel general em Abrantes”, e passaremos a falar de um “NoBrexit”.
Há males que vêm por bem. Pode ser esse o caminho sinuoso que os naturais da Grã-Bretanha arranjaram para voltar a casa, de onde nunca deveriam ter partido.
Ou, teimosamente, vão insistir no erro que mais tarde se arrependerão, a ter em conta os alertas que chegam um pouco de todo o lado.
A estimativa de danos e prejuízos caso se confirme o adeus é imensa. Só de multa, quiçá impagável, são 45 biliões de euros! Mais, segundo especialistas, 560 milhões por semana. Estimam-se perdas avultadas na ordem de cerca de 9,3% no PIB se não houver entendimento. A economia já regrediu 2,5% feita a comparação com a hipótese de se ter mantido no seio da Comunidade e, por sua vez, o Bank of England avalia que pode encolher 8% caso não haja período de transição. E que a libra poderá perder um quarto do seu valor. Enfim, são dados oficiais do Tesouro que o preveem, o Reino Unido ficará mais pobre com a saída do Bloco Europeu. E, por outro lado, pode ficar sem a Escócia que vem reclamando por referendo independentista.
Terão todos os britânicos que votaram noção de tudo isto? Ou foram levados por ímpetos populistas e caíram na esparrela?