
No Natal a generalidade das pessoas fica mais sensível que o costume. Não fujo à regra. É mais forte do que eu. O coração que já é grande (não é gabarolice sentimental, é questão física comprovada) fica maior.
Tenho a propensão para, neste período, escrever sobre os que, com idade infantil, vivem e sobrevivem neste planeta. Que, por vezes demais, lhes é madrasto. Porque são seres humanos indefesos, ingénuos e inocentes. E tantas vezes sujeitos a provações que os tornam vítimas imperdoáveis de um universo mau que vive a atormentar o bom. Predilecção que se compreende, sou pai de três filhos e resta-me uma em casa que é a depositária dos lucros do amor que o tal coração produz, minha “mais que tudo” e em quem, invariavelmente, revejo todas as crianças do mundo.
Mas, hoje, gostava de fazê-lo pensando nas pessoas que passam a quadra sem ninguém. Sem encontros ou reencontros, sem partilhas, sem afectos. Sozinhas. Sejam mais velhos ou mais novos. Uns mais conformados, outros mais revoltados.
E na profunda tristeza que se lhes apodera da alma, forçadamente solitária ou quiçá perdida, naquele dia. Que vivem de memórias que não conseguem agarrar, qual sonho acordado que não tem fim. Que sofrem em silêncio porque não têm a quem contar, que lavam a cara de dor sem vontade de a enxaguar, que se deixam ficar amarrados a uma agonia teimosa que os consome sem largar. Vencidos pela agrura do afastamento naquela redoma de desesperança infinita.
Ou que os revolta, quando são mais jovens, insuflados de incompreensão justificada e perturbadora. Não, não os podemos abandonar.
Contrariando a intenção encontrei um texto apropriado, naturalmente bem melhor do que qualquer mensagem que pudesse redigir. Trata-se de conhecida composição poética de Ary dos Santos que, abaixo, ouso reproduzir. Abusivamente, eu sei, mas é Festa. Faço meu o seu poema. Qual hino à solidão. E à solidariedade. É o meu conto de Natal para este ano. Que nos impele a reflectir no dia que sendo de alegria é, obrigatoriamente também, de introspecção.
Quando o homem quiser
Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão
E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão
Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão.
Ary dos Santos, in “As Palavras das Cantigas”
É arriscado oferecer outra leitura a seguir a poesia de qualidade. Limito-me a endereçar os votos de bom Natal e de feliz ano às e aos simpáticas(os) leitoras(es) e um outro para que se proporcione a oportunidade que amenize a solidão daqueles que passam esta época festiva involuntariamente sós. Mesmo os que não são próximos mas estão perto e carecem dessa mão solidária a dizer presente. Gesto que ofereça o alento que, de algum modo, atenue os compreensíveis sentimentos de pesada frustração. Para que, efectivamente, seja a esperança a última a morrer.