Serão os espelhos credíveis? Reflectirão, mesmo, a realidade? Serão sempre reflexo da verdade? As respostas a estas questões são como os chapéus. Há muitos! Ou muitas! Quem não se lembra de olhar um espelho convexo e outro côncavo? Quem não selembra de ir à velha feira popular e olhar-se naqueles milagrosos espelhos que nos fazem ficar mais magros, mais gordos, mais altos, mais pequenos? Mentirão os espelhos? Claro que não. Os bons espelhos são como os bons jornalistas. Dizem a verdade. Nua e crua. Às vezes dói, mas é a verdade.

Der Spiegel é um ícone da comunicação social mundial, editado sob a forma de revista, com periodicidade semanal, de “nacionalidade” alemã, que vem ganhando espaço internacionalmente pela revelação de casos complicados quer sejam políticos, económicos ou desportivos.

Em Portugal a der Spiegel ganhou honras de primeiras páginas de jornais quando decidiu lançar uma campanha persecutória contra Cristiano Ronaldo, baseando-se numa denúncia de uma senhora americana com a qual o atleta português teria tido um “caso amoroso mal resolvido” Revelava o der Spiegel, em traços largos, que a senhora em causa se queixaria de excessos do atleta português, excessos esses que teria aceite calar durante um tempo depois de ter recebido mais de trezentos mil euros há cerca de dez anos.

Acabado o dinheiro, perdoem, passados dez anos e lembrando-se de novo da noite passada com Cristiano Ronaldo, a senhora em causa vem interpor uma ou mais acções por suposta violação, pedindo uma indemnização de mais de um milhão de euros para dela se esquecer ou para lhe aliviar os problemas de consciência. A der Spiegel resolveu “comprar a história” e denegrir Cristiano Ronaldo, utilizando para tal supostos emails obtidos através de “pirataria internética” , vulgo hackering, emails esses que os advogados de Ronaldo dizem ter sido adulterados.

Pois bem, a credibilidade da der Spiegel, grande como era, fez com que milhões e milhões de pessoas vissem o português como um putativo violador e a senhora como quase santa. Televisões, jornais, rádios e blogs, sites e landing pages e a maior parafernália de opinadores e cronistas jamais vistas juntou-se para denegrir ou defender (em menor número) o português, todos cavalgando no excessivo e americano movimento “me too”. Ninguém respeitou Ronaldo, a sua família. Ninguém duvidou nas parangonas jornalísticas, da seriedade da senhora.

Pois bem, a Der Spiegel revelou esta semana o caso de um seu jornalista que falsificou informações em cerca de 14 dos 60 artigos publicados (dizem eles). Claas Relotius distinguido com vários prémios, inventou histórias e personagens em reportagens publicadas, nos artigos em questão, encontram-se alguns que foram nomeados ou ganharam prémios como “A última testemunha”, “Filhos do Leão”, e “Número 440”.

Claas Relotius escrevia para a revista alemã desde 2011, como freelancer, tendo sido contratado como editor há um ano e meio. Para além de escrever para a Der Spiegel, o jornalista contribuiu também para publicações como o Finantial Times Deutschland e Die Welt.

Claas Relotius devolveu quatro prémios de imprensa e a rede norte-americana CNN também retirou a Relotius de dois prémios de Jornalista do Ano que recebeu pelo trabalho que fez para a revista suíça Reportagen

E se a Der Spiegel se pusesse em frente a um espelho e lhe perguntasse: espelho mágico, espelho meu, alguém ainda acredita no que sobre Ronaldo a Der Spiegel escreveu?