
Emmanuel Macron venceu as eleições com relativa facilidade. Obteve 66% dos votos contra a adversária de extrema-direita Marie Le Pen.
Na altura tinha um currículo político insuficiente para os voos a que se tinha proposto. Dois anos como ministro da economia no governo de Manuel Valls e dois anos como secretário-geral de François Hollande na Presidência da República.
Membro do Partido Socialista desvinculou-se para fazer carreira política como independente. Opção que se tornou virtuosa já que possibilitou o desenlace pretendido, chegar ao Eliseu.
Mas nem tudo são rosas, antes pelo contrário, como se está percebendo com o que se vem passando em Paris e noutras cidades gaulesas. Com a fortíssima contestação, que virou violenta, dos chamados “coletes amarelos”. E não verdes como já li ou ouvi algures. Mas enfim, são coletes. E falam. Alto.
O regime presidencialista francês não protege quem exerce o cargo em alturas de maior turbulência. Porque não há almofada intermédia que amoleça as críticas contundentes que os momentos maus proporcionam. Vai tudo directo para o Palais de l’Elysée. Para além disso, no caso de Macron, sendo independente, não tem protecção partidária, coesa e oportuna. O facto de ter transformado o seu movimento de apoio em partido não conferiu ainda a essa agremiação a maturidade, a notoriedade e sobretudo a união que a junção de muitas partes ao centro aglutinou em altura especial.
O que se passa com os “coletes amarelos” é um caso desses. A inexperiência política fez o resto.
Esta revolta, com contornos ainda por descortinar, atingiu um ponto de ruptura inesperado tornando muito difícil a vida para o mais alto magistrado da nação. De tal forma que a contestação já gera um consenso de impopularidade quanto ao exercício do seu mandato que ultrapassa os índices negativos alcançados pelos seus antecessores.
Obrigado a falar ao país, mostrando a humildade conveniente mas alguma escusada fraqueza, tentou branquear a imagem que lhe colaram de que está do lado dos ricos contra os pobres, onde se inclui uma vasta classe média que receia perder esse estatuto.
Apelou à calma e à ordem e prometeu muito coisa, com destaque para o aumento de 100€ no salário mínimo. Estimativas apontam para que as medidas anunciadas tenham um custo de 10 mil milhões, com o défice a subir para os 3,4%.
Não vêm aí tempos fáceis para Macron. A braços com circunstâncias internas adversas mas também com sinais preocupantes quanto à conjuntura que se anuncia do exterior.
Caso o atentado de Estrasburgo não tenha o previsível efeito desmobilizador, os “coletes amarelos” voltam à rua no sábado (ontem), e não sabemos se a conversa dirigida aos seus concidadãos surtiu algum efeito ou se caiu em saco roto. É porque, para muitos, o objectivo é a conflitualidade persistente até à demissão do Chefe de Estado.
Por outro lado, a União Europeia fragiliza-se com o enfraquecimento dos seus membros. É o abandono do cargo de chanceler por Merkel na Alemanha, o Brexit e as consequentes confusões e contorcionismos no Reino Unido, a Itália entregue a correntes nacionalistas desalinhadas com Bruxelas mormente em matéria orçamental e a França com o seu Presidente a ser altamente contestado ano e meio após ter sido eleito. Se formos a juntar o que de politicamente bizarro e perturbador se passa na Hungria, com Órban, o caldo não entorna já mas ficamos na expectativa se não acabará efectivamente fora do prato.
A ver vamos se Macron resiste ou se passa de político promissor a flop em dezoito meses. Desfecho imprevisível mas importante para os franceses e para o seu país. Mas também para a Europa. É preciso lembrar que uma das inúmeras petições que os “coletes” apresentaram foi a saída da UE. No que seria um Frexit. Versão gaulesa do Brexit. Esperemos que não passe de alínea para fazer número no rol de queixas elaborado no calor da revolta.