Duvidei, durante muitos anos, das chamadas políticas de animação cultural como instrumento de reabilitação urbana. Por isso me opus ao projecto ‘Arte Portas Abertas’ que levou inúmeros artistas a intervir em Santa Maria do Calhau pintando as portas de um bairro então em ruínas, onde, porta sim, porta não, se autorizou a instalação de bares e restaurantes. A verdade é que nos últimos tempos, com o impulso dado pelo do Alojamento Local, tudo acabou por redundar num enorme sucesso. Não só para lojistas, turistas e artistas, mas também para os antigos residentes que dali transitaram para lugares mais habitáveis para quem trabalha e precisa de dormir à noite.

Continuo, todavia, a duvidar das portas pintadas. Não sou artista. Na verdade, como escreveu Adolf Loos há quase um século, um arquitecto não é mais do que um “pedreiro que aprendeu latim”. Talvez por isso, quando olho para uma porta do bairro de Santa Maria, vejo nas suas ombreiras de basalto as mãos do pedreiro que as lavrou; e nas suas travessas e almofadas as mãos do carpinteiro que as talhou ou as do pintor que as pintou. Vejo mãos de artífices, não de artistas. Vejo mãos anónimas e humildes que ergueram com destreza as casas da nossa cidade. É preciso respeitar essas mãos. Uma porta não é uma tela em branco, sem passado e sem história, sobre a qual um artista pode dar largas à sua imaginação.

Vem isto a propósito do projeto “Adote uma Loja”, iniciativa da Câmara Municipal do Funchal “que procura contribuir para a dinamização da economia local através da arte urbana” valorizando o comércio tradicional. O projecto circunscreve-se, nesta fase, à rua dos Tanoeiros, onde mais de uma quinzena de artistas, em diálogo com os lojistas, tendo como suporte bases de pipas, deram largas à sua criatividade. A pipa alude à toponímia, mas um sapato, como suporte, poderia também ter sido a opção, já que há hoje mais sapatarias que tanoarias na rua dos Tanoeiros. Se o critério toponímico prevalecer, teremos, provavelmente, ferraduras na Rua dos Ferreiros, barras de sabão macaco na rua do Sabão e toalhas de praia na rua da Praia. Tudo é possível, mas também irrelevante para a conclusão que quero tirar.

O que distingue o projeto “Adote uma Loja” do projeto “Arte Portas Abertas” é o que distingue uma pipa de uma porta: a pipa pode mudar de sítio se incomodar; a porta não. É esta providencial mobilidade que faz toda a diferença. A pipa é um adereço aposto à fachada, que é nela pendurado como um quadro numa parede, ou um fio eléctrico numa iluminação de Natal. O carácter efémero da instalação no espaço público do projecto “Adote uma Loja” faz dele, portanto, um acontecimento substancialmente diferente do que teve lugar em Santa Maria do Calhau. A reabilitação urbana, todos o sabemos, não depende apenas deste tipo de projectos mas, sem eles, tudo seria mais cinzento. Acolham-se, pois, sem preconceitos, as manifestações de arte popular nas ruas da nossa cidade.