“A autonomia das regiões visa a participação democrática dos cidadãos, o desenvolvimento económico-social e a promoção e a defesa dos interesses regionais, bem como o reforço da unidade nacional e dos laços de solidariedade entre todos os portugueses.” Foi com este espírito que no seu artigo 225.º ficaram consagradas as duas Regiões Autónomas, a dos Açores e a da Madeira, porém, ao comum dos mortais parece que em termos de sucessos e retrocessos, ambas as Autonomias têm trilhado caminhos paralelos, já que a Autonomia Açoriana se tem pautado através dos anos por realizar um percurso tranquilo, sem regateirices nem ameaças à sua continuidade, diferentemente da Autonomia Madeirense, que por tudo e por nada tem vindo a desenvolver-se quase sempre envolta em quezílias e quantas vezes até essa mesma Autonomia tem servido para ameaças independentistas. Em suma, duas zonas autonómicas com a mesma génese, mas que tão diferentes sempre nas suas vivências... Como muito bem se tem notado, a Autonomia Açoriana tem navegado sempre num mar de tranquilidade, isenta de insultos vários e sem turbulências, enquanto que a Madeirense se tem desenvolvido nas antípodas daquela, sempre em constantes crispações, que mais parece, a ter alguma utilidade, esse desenvolvimento aguerrido e constantemente pouco dialogante, a interessar a alguém decerto que não será ao povo da Madeira e do Porto Santo. De certeza absoluta. Daí que esta Autonomia que tal como a Torre de Pisa dificilmente se endireitará, me pareça que seja uma Autonomia cambada. E porquê? Pelos estilos diferentes e notórios de quem tem governado estas duas Autonomias? Talvez, até parece!...Se olharmos para quem tem dirigido a Autonomia Açoriana nestas já quatro décadas, em que o seu povo quase tanto como o povo madeirense, e repartido por distantes nove ilhas com isolamentos e misérias à mistura (que também as têm...), e se atentarmos no que foram os percursos autonómicos sob as batutas de Mota Amaral passando por Carlos Cesar e continuado agora com Vasco Cordeiro, acabamos por não encontrar nesses percursos nem polémicas estridentes e estéreis, nem chorrilhos de insultos fáceis, nem se ouviram até gritarias histéricas. Não houve porque não há necessidade e suponho que os Açorianos passaram bem sem tudo isso, daí talvez até a razão para uma ou outra picardia como ponta de inveja por parte de quem tem governado a outra Autonomia...E que diferença ainda entre as duas Autonomias? Parece-me que é a permanente e desnecessária defesa da teoria da mão estendida, da pedincha, quase sempre acompanhada de truculência áspera, de verborreia despropositada em vez de serenidade, em vez de elevada capacidade negocial que diga a quem compete pagar o quê porquê e como, já que Autonomia, parece-me, pressupõe contenção nos gastos e de quando em quando travão nos sonhos megalómanos, o que, diga-se francamente, tem existido em barda por este reino da fantasia como todos sabemos. Os madeirenses desejam uma Autonomia equilibrada, em constante e perpétua renovação, sem falhas, sempre bem negociada, de forma a que se erradique de vez a miséria, onde o direito à habitação não seja palavra vã, pois ninguém poderá dormir descansado sabendo que nesta terra que foi a terra do valor per capita bastante elevado, ainda há gente a viver em furnas, sem esquecermos que a iliteracia é arrepiante, tal como o abandono escolar. Autonomia sim, mas não uma Autonomia cambada.

Jorge Gomes