
O que mais surpreende quem visita os Açores é a beleza da sua paisagem rural e a sobrevivência da tradicional dicotomia entre campo e cidade – dicotomia que definitivamente se esbateu nas grandes regiões metropolitanas deste mundo. Ao madeirense, já familiarizado com a imagem da extensa metrópole que se estende de Santa cruz a Câmara de Lobos, poderá surpreendê-lo, nas ilhas açorianas, o forte contraste entre a paisagem rural dos dois arquipélagos: sobrevoar a Terceira ou São Miguel é como uma viagem ao passado, é como rever as ilustrações d’As Freguesias da Madeira, livro que o Tenente-Coronel Sarmento publicou em 1932.
Com um ou, no máximo, dois pisos, aninhadas em torno da igreja, as casas açorianas, vistas do céu, são como rebanhos que rodeiam o pastor entre prados e campos cultivados. Assim eram as da Madeira no livro do Tenente-Coronel – mesmo quando se dispersavam um pouco mais ou se alinhavam numa lombada; uma dúzia de metros mais abaixo, ou mais acima, lá estava o pastor, com a torre sineira a chamar o rebanho. Nos dias que correm, porém, o rebanho madeirense anda tresmalhado. Pior: há ovelhas com cinco cabeças que engoliram o pastor e vacas a ruminar ao lado de elefantes – alguns deles brancos.
Na Madeira os socalcos cultivados – os famosos poios –, que durante séculos moldaram a paisagem rural da ilha e eram motivo de espanto para quem a visitava, estão hoje praticamente extintos. Num processo que se iniciou há mais de meio século, o recuo da agricultura continua. Concomitantemente, polarizada pelo Funchal, a urbanização do território progride. Que interesse terão nesta paisagem os visitantes provindos, a maioria deles, das grandes metrópoles do Continente? Creio que nenhum.
Nos Açores, porém, a paisagem rural vai-se mantendo e o seu valor para o turismo que, nos últimos anos, tem crescido a olhos vistos, parece ser inestimável. Que importa que, objectivamente, ela seja a paisagem da fileira do leite e da carne, artificialmente mantida pela Politica Agrícola Comum? Não existem, por essa Europa fora, tantas outras paisagens agro-turísticas artificialmente mantidas pela PAC? Apetece perguntar: porque razão a Madeira relegou para segundo plano a sua paisagem rural, uma das mais belas do mundo? Uma paisagem que, ainda há décadas atrás, mantinha vivas as suas características únicas e que, a ter-se conservado, seria hoje uma séria candidata a figurar na cobiçada lista das paisagens classificadas da UNESCO. Não sei. Só sei que para fazermos uma ideia de como era, temos de folhear o livro do Tenente-Coronel.