A tragédia que vitimou treze vidas no Monte ocorreu há oito dias, precisamente no dia em que se festejava a sua padroeira. Uma tragédia que faz questionar os alicerces da nossa fé e da nossa comunidade. Ao longo destes dias de luto a comunicação social regional e nacional tem realizado diversas reportagens, e muitos partilharam as suas opiniões nas redes sociais e nos jornais. E esta semana a Sé do Funchal acolheu a missa onde, em comunhão de fé, rezamos em memória e sufrágio pelas vítimas a as suas famílias.

Compreendo e concordo com aqueles que dizem que ninguém deve procurar proveitos políticos desta tragédia. Afinal de contas, existem valores mais altos que a politiquice rasteira. Claro que o cidadão fica automaticamente de sobreaviso face à proximidade das eleições autárquicas, onde qualquer declaração política é ceticamente medida face à meta do calendário político que se avizinha. Mas curiosamente o termo “aproveitamento político” costuma surgir dos partidos do poder para “conter” as perguntas e as críticas que consideram incómodas, vindas da oposição. Mas um silêncio político seria uma demissão da função a que os políticos se propõem aos cidadãos.

Nesse sentido, ao mesmo tempo que se respeita o luto individual e coletivo, não se pode aceitar que essa motivação seja usada e aproveitada por alguns como mordaça completa ao normal funcionamento da nossa democracia. Existem tempos e os locais certos para que a verdade e a responsabilidade seja apurada, sendo que a justiça tem que trilhar o seu caminho. Ignorar essa necessidade, isso sim, seria desonrar as vítimas, os seus familiares e a segurança da comunidade como um todo.

O Sr. Bispo do Funchal, D. António Carrilho, enunciou na sua homilia, um a um, os nomes das vítimas. Para cada nome tinham sido colocadas no altar da Sé uma rosa branca e uma vela acesa, que com a sua simplicidade evocavam a fragilidade da vida humana. Que esses nomes não se apaguem da memória coletiva do Funchal. Porque o esquecimento é a maior ofensa a quem foi vítima naquele fatídico dia no Largo da Fonte. Depois desta tragédia, para o Monte poder renascer, é fundamental que a responsabilidade seja apurada e atribuída. O luto tem que dar lugar ao debate cívico, também sobre o papel do Estado – neste caso das autarquias – na salvaguarda da segurança pública. Sempre com um profundo sentido de responsabilidade de todos os agentes políticos da nossa terra.