Assistimos, por estes dias à maior catástrofe nacional, a qual resultou num número elevado de vítimas mortais assim como numa área ardida de dimensões aterradoras.

Assistimos também à forma desorganizada e desarticulada, com que foram surgindo medidas de intervenção de apoio à população. Essa vontade de intervir surgiu de forma espontânea, sem que existisse um serviço/entidade a montante, que organizasse e estabelecesse a imprescindível articulação entre as entidades intervenientes fossem elas públicas, privadas ou de economia social.

Com boas intenções, é certo, assistiu-se à “invasão” dos territórios afetados por parte de inúmeras entidades e técnicos sem capacidade de preverem o impacto social das suas ações. Não me refiro apenas à entrega de bens solicitados pelos Bombeiros, mas ao risco de desperdício de recursos técnicos e duplicação de apoios junto das populações, sejam eles de cariz económico, psicossocial ou outros.

Foram criados postos de atendimento psicossocial nas principais localidades sem contudo se questionar a capacidade de deslocação por parte dos habitantes até a esses locais. Todos sabemos que falamos de população maioritariamente idosa, isolados, com dificuldades motoras, muitas vezes dependentes e sem viatura para o efeito.

Assistiu-se à abertura desenfreada de contas por parte da banca e seguradoras (6 entidades bancárias e 2 seguradoras in publico.pt 18.06.2017), de estações televisivas e de instituições de solidariedade social de maior dimensão, sem no entanto existir um levantamento prévio das reais necessidades ou definição de estratégias e orientação de apoio à comunidade, ou até mesmo o pedido de colaboração com as entidades locais, no caso da banca e estações televisivas.

Assistiu-se ainda ao anúncio de doações particulares e institucionais de valores astronómicos (e.g. Aga Khan 500 mil euros, Fundação Calouste Gulbenkian 500 mil euros in publico.pt 18.06.2017) sem no entanto se clarificar quem irá gerir e avaliar a atribuição destes apoios.

Importa, por tudo isto e outras situações aqui não elencadas criar no futuro próximo, uma estrutura de âmbito nacional com atuação local, que reúna recursos técnicos e que em situações de crise esteja habilitada a comandar estas intervenções de operação imediata no terreno e subsequente acompanhamento psicossocial.

É imprescindível que se criem ações de formação ministrada por gente habilitada e com experiência, para Assistentes Sociais e Psicólogos, com vista à intervenção em contexto de crise e de catástrofe, para assim acompanharem as equipas de primeira linha, podendo deste modo atuar junto das populações numa relação de proximidade indispensável nestas situações de grande desgaste emocional e que exigem permanentemente reposta imediata e de necessidade de apoio. Saliento aqui, a falta de intervenção por parte de técnicos habilitados, em situações de evacuação das populações, por acreditar que a nossa intervenção seria fundamental e determinante, não esquecendo porém que esta só faria sentido enquanto elementos integrantes de uma equipa multidisciplinar a par com os bombeiros, militares da GNR e outras entidades.

Maria João Damas Morais