
A estratégia de criar Unidades de Ensino Especializado dentro das escolas, com o objetivo de promover a inclusão dos alunos que vivem presos a um conjunto de limitações profundas, problemas graves de cognição e multideficiências, foi estruturante e benéfica, em vários sentidos, contribuindo também em termos da consciencialização da sociedade.
A Unidade de Ensino Especializado da Escola Gonçalves Zarco tem sido um dos exemplos do excelente trabalho que tem sido desenvolvido. A presença destes alunos na escola, cada um deles com o seu elevado grau de dependência, agitou sentimentos e olhares, porque, cruzarmo-nos com algumas destas crianças, de forma pontual, toca-nos, mas passa rápido, todavia, conviver diariamente com a sua profunda diferença, nos corredores, nas escadas, nas aulas, na cantina, no bar, na reprografia, nas atividades lúdicas, nos pátios e nos jardins, vê-los chegar todos os dias com os pais, exigiu já um processo de adaptação persistente. Implicou uma mudança de atitudes que vai sendo construída por toda a comunidade escolar.
Estes alunos, integrados numa turma, frequentam aulas, fazem aprendizagens, de acordo com os seus contextos, têm apoios específicos, participam nas dinâmicas da escola, integram-se, fazem parte do mundo, percorrem os mesmos espaços dos restantes alunos, trocam sorrisos, comunicam, interagem com os outros e os outros interagem com eles, criando-se um relacionamento social saudável. São felizes à sua maneira.
A par da vertente educativa e da construção da sua personalidade, praticam pequenos afazeres da vivência diária, procurando aprender e aperfeiçoar algumas competências funcionais, num pequeno apartamento T0 que se criou, com o apoio de algumas entidades, de modo a ganharem alguma autonomia pessoal. Fazem a cama, arrumam o quarto, limpam, lavam a loiça, preparam algumas refeições, vão à padaria comprar pão, entre outras experiências de autonomização. A qualidade do trabalho desenvolvido pela equipa (educativa e técnica, relevando também a pronta colaboração dos pais e o apoio da DRE) da Unidade tem proporcionado a estes alunos uma significativa evolução, dentro da singularidade de cada um, como é evidente.
Só podemos falar de inclusão, se estes alunos tiverem a oportunidade de continuar a participar e a desenvolver todas estas atividades na escola. Se, por falta de recursos humanos, restringirem a sua atividade à sala da Unidade, a inclusão transforma-se em mera ocupação e apoio à família. Reconhecemos o esforço da DRE em tentar resolver as questões da falta de recursos humanos especializados, contudo, como não existem alternativas, os constrangimentos persistem, por isso, a contratação e a formação de técnicos especializados para exercerem funções nestas Unidades torna-se urgente.
A substituição de um técnico de uma Unidade não pode ser imposta a um Assistente Operacional qualquer, “assim, sem mais nem menos”, não é correto nem pedagogicamente aceitável. Trabalhar, acompanhar, garantir segurança, intervir com estes alunos, requer formação especializada, perfil adequado, sensibilidade, capacidade física e psicológica.