Nestes últimos dias, fomos surpreendidos com um acontecimento trágico, amplamente noticiado, que ocorreu em Londres. Estamos a fazer referência ao incêndio na Grenfell Tower que já provocou, até ao momento, um número significativo de pessoas mortas, outras desaparecidas e também feridas. É uma situação que teve e continua a ter profundas implicações pessoais e sociais e fortes consequências humanas, pois afetou, de forma irreversível, tantas vidas humanas, tantas experiências relacionais, tantos sonhos e projetos, tantas memórias guardadas, tantas histórias de vida e tantos percursos de persistência e empreendedorismo.

No entanto, não queria focar-me na dimensão trágica deste acontecimento, nem mesmo no facto da existência de tantas pessoas que durante anos tinham alertado a gestão do edifício para o perigo de incêndio (o que foi sempre ignorado) e que continuam a criticar essa gestão, considerada pouco rigorosa e até mesmo negligente, devido ao facto de se tratar de alojamento social.

Apesar de todos esses aspetos importantes, chamou-me particularmente a atenção as notícias (que talvez podem ter passado despercebidas para alguns) de que no início da manhã do dia em que tal tragédia ocorreu, as pessoas (os habitantes da zona) tinham literalmente “entupido” as igrejas, outras associações e instituições locais de solidariedade, com donativos para ajudar aqueles que tinham sido afetados por tal acontecimento. A tal ponto que muitos desses locais tiveram de fechar por não terem já mais capacidade para receber esses donativos. Essa onda natural e espontânea de ajuda e solidariedade é sinal claro que o humano da nossa natureza ainda prevalece, ainda assume a prioridade nas nossas vidas, ainda é a força dinâmica mais profunda que move as nossas escolhas e o nosso agir. E isto é de uma importância crucial para a a nossa identidade pessoal e para a nossa convivência social.

Afinal, neste nosso mundo atual onde impera o individualismo, o egocentrismo, a indiferença, a frieza relacional, o calculismo interesseiro, ainda existe espaço para a atenção aos outros, para o cuidado pelo “próximo”, para a fraternidade. Apesar de vivermos, segundo alguns, na “era do vazio”, numa situação de “crise” de valores que fundamentam a nossa identidade e a nossa ação, ainda continuamos a ter capacidade de olharmos para fora de nós mesmos, para além do nosso próprio “umbigo”, isto é, olhar para os outros, especialmente para aqueles que se encontram em situação de fragilidade e precisam de ajuda, de conforto e de apoio.

É verdade que, muitas vezes, estes episódios trágicos, trazem “ao de cima” esta capacidade humana de abertura aos outros, desafiam a viver profundamente a alteridade, a explicitar a comunhão existencial que une todas as pessoas, a extrair do mais profundo da natureza humana o seu potencial solidário, a ultrapassar egoísmos mesquinhos e desumanizantes, no fundo, desafiam a sermos verdadeiramente HUMANOS. É este o desafio constantemente presente nas nossas vidas, deixar que prevaleça o humano da nossa natureza de que a solidariedade é expressão privilegiada. Por isso, deixemos que a solidariedade aconteça.