Estranho título, não é? A expressão “dejecto taurino” não é mais do que uma possível tradução do inglês “bullshit”, e que de forma mais prosaica seria uma singela “trampa de touro”, ou até mesmo uma assertiva “merda de boi”.
Com a proximidade das eleições autárquicas, o fenómeno do “bullshiting” começa a tomar proporções alarmantes. A generalidade dos partidos, coligações e movimentos de cidadãos mais ou menos independentes (que têm vindo a brotar que nem cogumelos da sociedade civil e das franjas partidárias mal-servidas) insiste na utilização dum vocabulário demasiado elaborado e de conceitos desnecessariamente complexos. As poucas excepções confirmam a regra da pior maneira, ou seja, pelo discurso a roçar a vulgaridade. Veja-se o caso de Gil Canha, o qual exibe uma prática discursiva que também tem reminiscências de “gado vacum”, o bem cotado “chamar os bois pelos nomes” (tenho as minhas dúvidas se aludir a um adversário como “raposa pelada” se enquadra nesta categoria). É um tipo de “soundbyte” com muito mais alcance e impacto, mas Canha estraga tudo quando mistura a habitual linguagem de carroceiro com termos mais elaborados: na sua última entrevista, o candidato dos monárquicos e dos reformados não se cansou de usar o termo “defenestrado”, mal de que pelos vistos foi acometido e que lhe deixou marcas profundas (fora de brincadeiras, até está bem empregue, por poder significar expulsão violenta dum cargo, mas tem uma ressonância desagradável, uma estranha sugestão de invasão rectal que confunde os eleitores).
Piores são os que insistem em falar uns para os outros. A esquerda até se porta bem, limitando-se a debitar os eternos chavões com a sua sempiterna convicção mal-humorada. Nos outros partidos é que a porca torce o rabo. Já não há pachorra para o discurso pomposo e palavroso para enganar tolos. Neste particular, o actual “Mayor” do Funchal bate os seus adversários aos pontos. Tudo o que tenha a ver com o famoso Gabinete da Cidade, ou com os ventos do tipo Smart Funchal, é apresentado aos incautos cidadãos embrulhado numa camada tão espessa de “bullshit” que, aposto, não haverá meia dúzia que perceba “um boi” daquilo.
“Contribuir para qualificar um debate que se quer estruturante para projectar o futuro do Funchal; possibilitar uma reflexão sustentada em torno de problemáticas absolutamente actuais; catalisar o turismo sustentável; as tecnologias emergentes; o valor acrescido; a economia do conhecimento; o formato disruptivo que reuniu forças vivas para debater a cidade inteligente; o programa estratégico que se chama PERU; a reabilitação, reconversão, revitalização, requalificação e reconfiguração de tudo o que mexe (ou não mexe); os eixos; as envolventes; o tecido edificado; o miolo dos quarteirões; o carácter fundacional do passeio público; o chão comum ... e a inevitável alteração do paradigma”. Um longo e cansativo desfiar da mais genuína “bullshit”.
O Funchal já merece mais um galardão, o de “Cidade Bullshit Premium 2017”, atribuído pela Bullshit Organization for Smart Towns Abroad, a reputada BOSTA.
Se tal acontecer, não se esqueça: #agradeçaaocafôfo.