Os jornais mexicanos exprimiram hoje a sua indignação após o assassinato do jornalista Javier Valdez, reconhecido especialista em narcotráfico e correspondente do diário mexicano de esquerda La Jornada e da agência France Presse.

“Impunidade assassina”, refere no seu editorial de hoje o diário La Jornada, para o qual trabalhava, ao lamentar que “matar um jornalista, uma mulher, um defensor dos direitos humanos, um qualquer cidadão, se tornou numa atividade com muito poucos riscos” no México.

“Matar sem piedade, com toda a impunidade: até quando?”, interrogava a página digital da revista Ríodoce, após a morte do seu fundador, 50 anos, morto segunda-feira por vários disparos em pleno dia na cidade de Culiacan, estado de Sinaloa (noroeste), perto da sede da sua revista.

Nas redes sociais, profissionais dos ‘media’ ou cidadãos comuns exprimiam a sua tristeza e revolta com a palavra-chave #Nosestanmatado (estão a matar-nos).

Em 2017 já foram assassinados no México cinco jornalistas, e ainda um escritor que animava uma emissão de poesia na rádio.

Algumas dezenas de jornalistas reuniram-se no final da manhã no centro da Cidade do México com fotos de Javier Valdez e um imenso ‘graffiti’ pintado no chão com a frase “Estão a matar-nos”.

Estavam ainda previstos protestos em Culiacan, onde o jornalista foi abatido, e em Chilpancingo, no estado de Guerrero (sul).

O corpo de Javier Valdez será incinerado no final desta tarde (hora local) na sua cidade natal de Culiacan.

As autoridades mexicanas encontravam-se hoje sob pressão após a morte deste repórter emblemático, que recebeu diversos prémios internacionais e denunciava quer os cartéis da droga ou a corrupção no poder estatal.

No ‘Twitter’, o Presidente Enrique Peña Nieto condenou um “crime indigno” e assegurou ter dado instruções para que o ministério da Justiça “apoie as autoridades locais no inquérito”.

De acordo com a ONG mexicana de liberdade de imprensa Articulo 19, foi a primeira vez que o Presidente reagiu nesta rede social á morte de um jornalista.

A responsabilidade “é daqueles que nos governam e que não são capazes de garantir o direito à vida dos cidadãos, que na melhor das hipóteses agiram com indolência perante a deterioração da segurança pública”, denunciou o La Jornada, cuja correspondente em Cuidad Juárez (norte) foi abatida em março.

Segundo o Articulo 19, que identificou 105 jornalistas assassinados e 23 desaparecidos no México desde 2000, 97% destas mortes permanecem impunes, apesar da criação de uma jurisdição especial e de um mecanismo governamental de proteção dos jornalistas.

Os Repórteres sem fronteiras (RSF) consideram o México o terceiro país do mundo mais perigoso para os jornalistas, após a Síria e o Afeganistão.