A tradição já não é o que era? Claro que é, pelo menos no que respeita às visitas papais.

Já vamos no quarto Sumo Pontífice que se desloca a Portugal, sempre com o Fátima Shopping como destino final, e não houve excepção. A única nota dissonante foi dada por Salazar, que por ocasião da visita de Paulo VI, em 1967, decretou um feriado nacional (não uma tolerância de ponto), acompanhado duma amnistia geral (neste caso, o termo “geral” teve um significado particular). As aministias, aliás, têm andado de braço dado com as tolerâncias de ponto: só em 2000, aquando da derradeira visita de João Paulo II, não foi concedida qualquer amnistia.

Voltando às tolerâncias de ponto, Pinto Balsemão, António Guterres, Cavaco Silva e José Sócrates, todos eles a decretaram. Houve quem se esticasse até aos três dias de tolerância, e quem se ficasse por um só dia (Sócrates, por exemplo, deu um brinde de dois meios dias a lisboetas e portuenses).

Estamos, pois, conversados no que à tradição diz respeito, o que não é de todo impeditivo de que se reitere as incongruências e constrangimentos desta decisão, quer a nível nacional quer regional. Desde logo, o que é inédito, os dois partidos de esquerda que suportam a solução governativa de António Costa, estranhamente, não se opuseram a esta decisão: para onde foi a laicidade, camarada Jerónimo? Separação entre Igreja e Estado? Liberdade Religiosa? Isso agora não interessa nada, camarada Catarina? O Bloco de Esquerda também tinha dois Papas, ora aí está um bom slogan para um cartaz, não é? Até o brioso camarada Arménio interrompeu o estado de semi-hibernação, exigindo igual medida para os trabalhadores do sector privado.

Por cá, é o PSD que se recusa a dar uma folga à função pública, decisão justificada pela ausência de continuidade territorial. Como se um madeirense não pudesse apanhar um avião para ir ver o Papa... Pois, se calhar poucos o poderão fazer, devido ao preço proibitivo das viagens; até se podiam organizar excursões de ferry...ah, mas não temos! A culpa é de Lisboa, que não nos assegura a continuidade territorial que está constitucionalmente consagrada e que... espera lá... agora fiquei baralhado... Para contrabalançar, os municípios regionais sob a alçada do PS (correcção: dois sob a alçada do PS e outro sob a alçada do Cafôfo) decretaram tolerância para os respectivos trabalhadores. O argumento é o da reposição da justiça, mas não deixa de tresandar a populismo.

Enfim, gostaria de ter discorrido sobre o custo duma tolerância de ponto (cerca de €30M), do desigual benefício que concede ao sector público, do duplo castigo que imputa ao sector privado (creches e escolas encerradas, pais trabalhando), do reagendamento de inúmeras consultas e cirurgias, da inteligente decisão dos médicos em fazer greve nos dois dias que antecedem a visita papal... mas o espaço disponível não o permite.

Assim sendo, fico-me por aqui, e insisto no estapafúrdio deste cenário: por lá, a esquerda tolerante e pia; por cá, a intolerância perante a tradição. Cá e lá, sem qualquer rebuço, aproveitamentos oportunistas. Uma certeza, apenas: isto não tem nada a ver com FÉ...