Os recentes eventos como a morte de Mário Soares ou a mudança de nome do aeroporto da Madeira para Cristiano Ronaldo levantaram controvérsia sobre a popularidade das personalidades. Tal como muitas outras áreas esta é também uma que foi influenciada pelo papel das novas tecnologias e dos novos media. Felizmente estas novas ferramentas tornam também mais fácil analisar fatores como popularidade e fama na cultura popular. Foi este o trabalho desenvolvido pelo grupo Macro Connections do MIT Media Lab (http://macroconnections.media.mit.edu) liderado pelo físico César Hidalgo.

Hidalgo utiliza a Wikipedia como repositório de memória cultural para analisar a popularidade cultural de personalidades da antiguidade até os nossos tempos. O sistema de visualização online Panteão (http://pantheon.media.mit.edu) é uma ferramenta fascinante para analisar a contabilidade dos famosos com base na informação contida nas suas páginas do Wikipedia. O desafio desta equipa de investigação foi tentar encontrar um modelo cientificamente válido para permitir a comparação do nível de fama de diversas celebridades. O modelo proposto tem em consideração o número de línguas em que a página de uma personalidade na Wikipedia é traduzida. Uma pessoa é considerada famosa se a sua página estiver traduzida em 20 ou mais línguas. Um outro índice mais complexo (índice histórico de popularidade - HPI) tem em consideração outros parâmetros como o número de visitas da página e a idade histórica da personalidade.

Se analisarmos os dados das personalidades portugueses no Panteão (dados de 2013) encontramos 84 personalidades famosas (com L>20). Se dividirmos por grandes períodos históricos temos 15 antes dos descobrimentos (<1400) essencialmente Reis e um Papa, 31 até à primeira república (1910) vários exploradores, políticos e dois escritores (Camões e Pessoa), um cientista (Egas Moniz) e uma cantora (Carmen Miranda). Até à revolução de 1974 temos 16 personalidades incluindo Saramago, Siza Vieira, Eusébio, Amália, Mourinho e depois 7 políticos (Soares, Barroso, Sócrates, Sampaio, Cavaco e Guterres) e 4 jogadores de futebol (Figo, Pauleta, Rui Costa e Baia). Já nascidos depois de 1974 temos 24 personalidades, 23 jogadores de futebol (incluindo Cristiano Ronaldo o único madeirense da lista) e um treinador (Villas Boas). Por curiosidade o nosso Panteão nacional alberga 12 personalidades, apenas duas delas (Eusébio e Amália) constam do Panteão virtual da Wikipedia.

Estes dados são por si só interessantes para refletirmos sobre o impacto de Portugal em termos culturais. Das 84 pessoas ¾ são políticos (43%) e jogadores de futebol (31%), seguidos de 6 exploradores, 4 escritores e um ou dois nas restantes categorias. Apenas um cientista, e nenhum artista, músico, engenheiro, empresário ou economista. Esta breve análise permite algumas conclusões interessantes. Em primeiro que o número de pessoas famosas aumentou com a disseminação das novas tecnologias e media. Para ser famoso no Sec. XXI basta ser Presidente da República, Primeiro Ministro ou um futebolista de projeção internacional. No Sec. XV era preciso fazer um pouco mais, por exemplo descobrir um novo continente ou dar a primeira volta ao mundo. É este o facto que justifica que aparentemente estejam a morrer mais pessoas famosas a cada ano que passa, quando na realidade a nossa cultura está é a produzir mais pessoas tornadas famosas pelos media. A segunda conclusão que se pode retirar desta análise é que infelizmente o leque de escolhas para dar o nome a uma infraestrutura de impacto internacional como um aeroporto é muito reduzida. Retirando jogadores de futebol ou políticos sobra muito pouco do património cultural português nos últimos 200 anos (Egas Moniz, Pessoa, Saramago, Carmen Miranda, Siza e Amália).

É preciso não confundir fama (ser reconhecido pelo talento ou conquistas) com importância (ter impacto e influência a nível internacional). Uma pessoa é reconhecida devido a ter realizado um feito que se tornou culturalmente popular, o que não implica que este tenha tido qualquer relevância ou importância para a história da humanidade. Quantos prémios Nobel são desconhecidos e quantas socialites são insignificantes. Fama e importância são conceitos muitas vezes independentes. Ou seja, uma personalidade historicamente importante para a humanidade poder não ser considerada famosa ou culturalmente relevante para a sociedade atual. Do mesmo modo que uma personalidade considerada famosa não necessita de deter um grande impacto histórico para a humanidade.

No ranking L dos Portugueses famosos temos Fernão de Magalhães (traduzido em 140 línguas), Vasco da Gama (L=137), Cristiano Ronaldo (L=112), Saramago (L=93), Gueterres (L=83), Eusébio (L=77) e Mourinho (L=72). Contudo, no ranking que tem em consideração a popularidade histórica (dados de 2013) Ronaldo aparece no lugar 54 atrás de Mourinho (50º) ou Eusébio (15º). No topo continuam Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, as personalidades mais recentes são Saramago (11º), Salazar (9º) e Pessoa (8º). É natural que Ronaldo (tal como Guterres e Mourinho) venham a subir substancialmente neste índice que tem em consideração a idade e o impacto ao longo do tempo. Mas enquanto a carreira de político internacional ou mesmo de treinador permite uma maior longevidade, já a de futebolista é mais efémera. Por exemplo Luis Figo está em 56º no ranking e dificilmente conseguirá manter a popularidade. Já o mesmo não acontece com outras personalidades recentes como Pessoa e Saramago que por serem escritores têm grande importância e uma obra com impacto muito para além da sua própria vida.

Dar o nome do Aeroporto da Madeira a Cristiano Ronaldo será com certeza uma boa jogada de marketing imediato já que ele tem uma média de quase 9000 visitas diárias só na Wikipedia. Já agora os números mostram que Mourinho é mais popular com quase 16 000 visitas. Se no futuro ele terá impacto dependerá muito do que fizer depois de deixar o Futebol. Como em quase tudo na vida não é a fama efémera, mas o impacto de longo prazo que podem fazer a diferença.

*com Tomás Nunes