Em 2016, os dicionários Oxford escolheram “pós-verdade” como palavra do ano. Em 2017, e a avaliar pelo andar da carruagem, tudo se encaminha para este ser o ano da “pós-tontice”.
Este neologismo, que eu acabei de criar neste preciso momento, pode ser definido como o acto de transformar a análise a um determinado acontecimento em algo confrangedor e disparatado.
Tomemos o exemplo da viagem de finalistas a Torremolinos, que tomou conta dos noticiários e das redes sociais na última semana. Para quem anda distraído ou desmemoriado, episódios mais ou menos semelhantes já ocorreram o ano passado, no ano anterior, e até há quem afirme que há trinta e tal anos presenciou ou participou neste tipo de cenas. Nada de novo, portanto!
Como habitualmente sucede quando uma notícia é de molde a potenciar o extremar de posições e a favorecer o conflito (neste caso geracional), as hostes barricaram-se na trincheira das suas verdades e certezas, e a guerra começou.
Do muito que fui lendo, retirei algumas ilações:
1 - Os adolescentes ou jovens adultos em viagem de finalistas têm sempre intenção de, no mínimo, ingerir bebidas alcoólicas e manter relações sexuais q.b., naquilo que se poderia chamar uma “agenda Dijsselbloem”.
Na verdade, quando não está em viagem de finalistas, também é isso que a malta faz, principalmente aos fins-de-semana: tomar copos e dar quecas. Podem pais e avós escandalizar-se muito, mas só não fizeram o mesmo os que não puderam (pode mesmo haver aqui alguma inveja, porque os tempos eram outros...). E digo isto com todo o respeito por todos os finalistas passados, presentes e futuros que não se revêem nesta licenciosidade e libertinagem. Também os há, e são precisamente as generalizações que estragam tudo;
2 - O vandalismo não é aceitável, não é justificável nem é desculpável, por muito mau que seja o serviço, ou por muito grande que seja a revolução hormonal. Bêbedo ou sóbrio, um vândalo é um vândalo. Ponto final;
3 - Nunca como agora as agências de viagens investiram tanto neste nicho de clientes (veja-se a notícia do Público de 12 de abril – “Agências patrocinam eleições de associações de estudantes para garantirem viagens de finalistas”), o que ajuda a explicar as versões divergentes;
4 - Há sempre lugar para a asneira neste tipo de debate. Alguns exemplos:
- Helena Pedroso, vice-presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais, não hesitou em sugerir um Hotel em Fátima como alternativa calma e tranquila;
- Maria João Marques, articulista de opinião no Observador, comparou os finalistas à Geringonça, numa forçadíssima analogia com o desrespeito pela propriedade privada;
- Nuno Rogeiro, especialista em generalidades, não fez a coisa por menos, e invocou o Daesh em vão: se fosse um atentado terrorista, se calhar a estância turística não ficaria pior.
Três perfeitos exemplos de “Pós-tontice”. Penso que temos candidato a “Palavra do Ano 2017”.