O Troll é uma figura antropomórfica do folclore escandinavo, habitualmente representado como um enorme e repulsivo ogre. O termo também é utilizado no jargão dos internautas, para designar aquele que, quase sempre de forma anónima ou por intermédio de perfis falsos, deliberadamente incomoda, perturba ou insulta os demais.
Uma carta de leitor há poucos dias publicada no Diário, alegadamente escrita por um visitante ocasional e com mau feitio (ou mau gosto, ou mal informado), encaminhou-me para esta reflexão. Em primeiro lugar porque o seu teor lhe garantiu, num ápice, a característica que mais cauciona o “sucesso” no mundo virtual – a viralidade; em segundo, porque desencadeou um turbilhão de reacções violentas, quer no repúdio quer nos encómios (surpreendentes, ou talvez a confirmação de que somos os nossos maiores inimigos – de qualquer forma, impensáveis há alguns anos neste berço de um Povo Superior); finalmente, pelas suspeitas de que a identidade e até a proveniência do autor não fossem as indicadas.
Há pelo menos três fenómenos, todos eles em exponencial crescimento na “world wibe web”, que me desgostam e preocupam sobremaneira: a proliferação de notícias falsas, a banalização dos perfis falsos e a institucionalização do anonimato.
A notícia falsa só faz sentido num contexto de humor, e devidamente identificada (como no “Inimigo Público” ou no suplemento “Espada com Banana”, que eu ajudo a servir no dnoticias.pt – passe a publicidade).
Em qualquer outro formato ou cenário, que não seja o do interlúdio escapista à seriedade e agruras da vida, a notícia falsa é um tumor que contamina a saúde da democracia e mina a credibilidade do jornalismo autêntico. A verdade é condição fundamental duma sociedade livre e democrática, e a sua vulnerabilidade é deveras preocupante.
Quanto aos perfis falsos e ao anonimato, só se fossem irrelevantes é que mereciam ser simplesmente ignorados, ou meramente etiquetados com o labéu da covardia.
Não são irrelevantes! São sintoma duma sociedade doente, adormentada e embrutecida. São produto de algumas pragas civilizacionais, como o tédio, a solidão e a alienação.
O conforto de usar um ecrã como camuflagem permite realizar fantasias, exercitar o sadismo (ou o masoquismo), garante uma ilusória sensação de poder, desinibe os pudores e os receios de descriminação social. Seja por revolta, catarse, vingança, falta de auto-estima ou dezenas de outros motivos, onde não será despiciendo incluir distorcidos conceitos de liberdade e igualdade, mas onde não há espaço para a fraternidade.
Por este andar, em nome da liberdade de expressão e de opinião, e com a desculpa da segurança, ainda havemos de assistir a um mundo online no qual, e que George Orwell me perdoe a subversão, “uns serão mais trolls que outros , mas todos serão trolls”.