As reportagens dos diferentes canais públicos de televisão sobre os incêndios no país, este ano, fazem com que os olhos se embaciem e as lágrimas nos corram pela face, tal a dimensão da tragédia.
José Gil, filósofo, disse que esta era uma tragédia enorme: “Não ligamos ao nosso passado e também não ligamos ao nosso presente.” (Jornal Negócios, 28 Out)
“Estes fogos apenas descarnaram o país esquelético que fomos criando. Mataram os mais indefesos.”, escreveu o Professor José Reis. (“Estes fogos que nos descarnam” Público, 20 Out)
“Olho o rosto do camponês publicado na primeira página do Público e não consigo ficar calado. É o rosto de séculos de pobreza, o rosto do Portugal esquecido e abandonado pelo próprio Estado democrático, o rosto daquela parte do país que foi deixada para trás quando a agricultura foi vendida a Bruxelas a troco de fundos para auto-estradas que hoje levam a lado nenhum. Um Portugal que já só existe nas páginas de Aquilino e de Torga.”. (Manuel Alegre, “Não consigo ficar calado”, DN, 18 Out)
“As pessoas do interior são pessoas esquecidas, e a nossa política esquece-as por não-inscrição, elas não têm importância, e portanto faz-se uma política de combate aos fogos que fica no papel e depois esquece-se, esquece-se alegremente. Porquê? Por causa da tal não-inscrição, que gera irresponsabilidade. Porque aquilo que tem importância passa-se nas cidades, o que tem importância tem que ver com a cultura que aí vem, a das novas tecnologias, com o “show” citadino que isso implica, e as pessoas de um outro passado e de uma outra geração são desvalorizadas, elas não existem, e elas sabem que não existem e que não contam para o Estado.” (José Gil)
A jornalista, Helena Garrido, escreveu: “É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.” (“Uma tragédia escolhida por nós”, Observador, 19 Out)
João Freitas