Na primeira semana de novembro veio a público a noticia de que um padre na Ilha da Madeira assumira uma filha, nascida em agosto. Apesar de o então padre ser padre, e passo a redundância, isso não o impediu de neste momento estar a viver a felicidade da maternidade, neste caso, da paternidade.
Quando se reflete sobre a religião Católica, refletimos necessariamente sobre o celibato. Entenda-se por celibato uma pessoa que vive, por decisão
própria, sem se casar e sem ter relações sexuais. Esta definição surgeenraizada na própria
igreja, onde é exigido aos padres que adotem este modo de vida
quando decidem que o sacerdócio
será o caminho a seguir.
No entanto, são cada vez mais os casos que, ou conhecemos ou ouvimos falar, de padres a quebrar este principio.
O importante a refletir não é sobre o “pecado” que estão a
cometer, mas sim até que ponto este principio vinculado pela igreja é, em pleno século XXI, compatível com a sociedade em que nos inserimos. Acho sinceramente que um padre não perde ou perderá a sua credibilidade junto dos seus fieis apenas pelo facto de querer ser pai, a verdade é que é um homem e sobretudo um humano, que possui, tal como todas as outras pessoas, sentimentos e desejos. Será que um padre que nunca teve filhos, mas que já se envolveu sexualmente com alguém e não o tornou público é considerado um melhor padre do que aquele que assume? Não creio. Pelo contrário, acho sim que está a pecar, se assim o podemos dizer, com mais gravidade do que aquele que assume o nascimento de uma nova vida. Trata-se, na minha opinião, de um grande ato de coragem, pois poderia, como tantos outros pelo mundo fazem, ter um ou mais filhos sem nunca o tornar público.
Juntamente com a noticia de
que o padre havia assumido a paternidade surge uma lista de 18 outros padres que também foram
pais, mas continuam a exercer as suas funções enquanto sacerdotes e isto leva-me a pensar que gradualmente este facto começa a tornar-se comum. Ainda que a sociedade não aceite de braços abertos, sou forçada a admitir que estaremos a enfrentar o início de uma mudança na ideologia cristã, que acho ser muito benéfica para todos.
Acredito que um padre possa ser ainda melhor no exercício das suas funções se tiver a felicidade de ver um filho crescer.
Estamos então, perante as duas faces de uma moeda. Se por um lado acho legítimo que um padre possa construir família, não ficando obrigada para o resto da vida a viver só, também sei reconhecer que o ideal do celibato está muito enraizado na nossa sociedade e particularmente nas ideias do cristianismo. Seria preciso uma mudança radical, tanto por parte da igreja como pelas pessoas, e quando falo nas pessoas refiro-me à sua forma de ver o mundo e de o comentar. Acredito que o padre que anunciou ser pai recentemente não esteja a passar por uma fase fácil, mas reconheço que a sua atitude é de louvar.
Não nos esqueçamos que somos humanos, e os humanos erram.
Independentemente do seu estatuo social.
Daniela Abreu