Nove estudantes birmaneses foram acusados de difamação por uma peça de teatro que ridiculariza os militares, prova das restrições à liberdade de expressão que continuam a existir no país.

A junta militar cedeu o poder a um governo civil, empossado há dez meses.

Os vídeos da peça, levada a palco a 09 de janeiro, no âmbito de uma ação de promoção da paz em Pathein, no sul da Birmânia (Myanmar), tornaram-se virais e desencadearam a queixa do exército.

Um graduado da região considerou que a peça “podia rebaixar e destruir a imagem da Tatmadaw”, nome birmanês das forças armadas, explicou Zaw Min Tun da polícia de Pathein.

Numa das cenas, a mulher de um militar explica que apoia a guerra porque afasta o marido da casa: “o meu marido está em combate há muito tempo... portanto, posso ter casos livremente”.

Quando chegou ao poder, o novo governo civil, liderado de facto por Aung San Suu Kyi, comprometeu-se a aumentar as liberdades civis, mas a lei sobre a difamação, muito utilizada pela junta, continua a vigor.

O artigo 66d, que corresponde à difamação na internet, foi tão usado nestes últimos meses como nos dois últimos anos, no período de transição.

“Os governos democráticos não prendem quem critica os responsáveis governamentais ou militares”, lembrou Brad Adams, diretor para a Ásia da organização não-governamental Human Rights Watch.

No domingo, advogados e jornalistas manifestaram-se em Rangum para exigir a revogação da lei.

Na passada semana, a enviada especial da ONU à Birmânia, Lee Yanghee, criticou as autoridades por terem recorrido à lei sobre a difamação contra pessoas “que se limitaram a expressar a sua opinião”.

Em setembro, um homem foi detido e julgado por ter chamado “louco”, na rede social Facebook, ao presidente birmanês, um amigo e aliado de Aung San Suu Kyi.