Na segunda-feira passada, a Cimeira dos Refugiados e Migrantes na ONU, focou, pela primeira vez em exclusivo nesta organização, um dos maiores problemas da humanidade. Conforme se esperava, o resultado foi uma versão muito diluída e pouco definida daquilo que era o objectivo original e a contribuição de muitos países grandes para o melhoramento da situação dos refugiados continuou a ficar muito aquém do expectável e possível (uma China declara que a contribuição de cerca de 100 milhões de euros é “em função das suas capacidades” enquanto, já agora, Mark Zuckerberg, practicamente na mesma altura, doa 2.7 mil milhões de euros para ajudar na erradicação de doenças maiores). Uma das centrais preocupações das discussões na Cimeira foi a posição das crianças no meio deste caos, e acesso deles à saúde e educação públicas, seja onde for. Mas a Nobel da Paz, a jovem Malala Yousafzai, mostrou-se inconformada com o aparente baixar da fasquia que aconteceu nesse dia, e insistiu que “não podemos aceitar um mundo em que pescar crianças das águas e meter-lhes curativos representa o cume das nossas ambições para com os refugiados”. Pois, para além da mera “sobrevivência” das crianças, há que tratar de feridas quase indeléveis da saúde mental, stress pós-traumático e infâncias interrompidas, tudo na sequência de terem visto as suas famílias destroçadas (129 crianças não acompanhadas – 17% das 760 registadas, que representavam mais de 10% da população deste campo de acolhimento - desapareceram da “selva” de Calais depois da sua desintegração), terem assistido a horrores de guerras, gravados para sempre na memória, e terem vivido experiências dramáticas de fugas desesperadas. No entanto, e não obstante as demoras da política global, são variadíssimas as iniciativas individuais e de pequenas comunidades que visam atenuar as consequências de vidas fragilizadas, sonhos interrompidos e jogos inacabados, e muitas delas utilizam a música como uma ferramenta poderosíssima. A iniciativa “Música na Comunidade” do Colégio de Arte de Edimburgo, apresenta contos musicais com a participação de crianças refugiadas, ora numa escola da África Ocidental, ora - em parceria com a Universidade de Atenas – num acampamento de refugiados na Grécia. A realizadora já teve muitas experiências com comunidades marginalizadas e treina psicólogos para trabalhar com crianças traumatizadas utilizando música e artes criativas. Um jovem de 27 anos, Ayham al-Ahmad, ficou, durante os primeiros quatro anos da guerra na Síria, no único lar que conhecia, um campo de refugiados palestinianos perto de Damasco, e tocando o seu piano no meio dos destroços, diariamente proporcionava distração e alívio a centenas de crianças traumatizadas, que o cercavam “como abelhas à volta de uma flor da roseira”. “Não lhes podia dar comida, mas podia alimentar os seus cérebros com a música”, comentou. Uma jovem americana em Berlim, Kate Eberstadt, criou o Projecto Hutto, um coro infantil para crianças de um campo de refugiados daquela cidade alemã, a que se associaram outras artes e oficinas para crianças. Todas as línguas ali utilizadas – russo, árabe, curdo, pashto, farsi – cedem para dar lugar à linguagem comum da música, que lhes permite transpor os fossos culturais e geográficos. A Refuge Productions apresentou recentemente a versão adaptada para o Médio-Oriente do musical “Oliver!” em Amã, com 40 crianças sírias e jordanas a ajudar aproximar as comunidades e combater os problemas de refugiados urbanos. A escocesa Lucy Smith passou dois meses num campo de refugiados em Mianmar, ensinando música àqueles que não têm direito de acesso às escolas públicas. A organização “Músicos sem Fronteiras” está a financiar a educação de 30 “líderes de comunidade” que irão utilizar música para dar apoio psicológico a milhares de refugiados em Ruanda. São esses os exemplos que fazem acreditar que a humanidade pode fazer mais do que comprometer-se, através das instituições globais, de resolver num ano a “sobrevivência” de 360 mil refugiados - 1.5% dum total de 21 milhões. Pode, sim, devolver-lhes a sua própria humanidade, a sua identidade e a certeza de que pertencem ao mesmo mundo que todos nós, o mundo esse em que a Música será sempre a nossa amiga, professora e conselheira.

Robert Andres Musicólogo