A ideia de que usar com frequência numa conversa ou num texto um estrangeirismo (palavra proveniente de outra língua) é sinónimo de maior cultura, visão ou conhecimento, é tão errada quanto provinciana. O estrangeirismo é o processo que introduz palavras vindas de outros idiomas na língua portuguesa. Este processo ocorre com o aportuguesamento ou sem ele, quer o seu uso seja assumido oficialmente ou não. Esta adaptação é razoável quando de algum modo a palavra de uma língua estrangeira acrescenta algo à nossa capacidade de verbalizar ou exprimir alguma ideia. Outra coisa é o uso, tão frequente quanto redutor, de palavras de línguas estrangeiras sem qualquer necessidade, especialmente quando o português (sem qualquer laivo de nacionalismo) é uma língua extremamente rica e flexível. Troquemos por miúdos: quem este verão ainda não foi convidado para uma “sunset party” num qualquer “rooftop” de um hotel? Ou quem nunca recebeu um convite com um “dress code” associado? E porque teremos de usar toda a vida uma “password” e um “username”? E porque temos na construção de algum trabalho partilhá-lo como sendo um “draft”? E porque razão já é quase nossa a expressão “take away”? E, para terminar, porque teremos de ter “promenades”? Eu – que nesta matéria me confesso às vezes pecador – entendo que a língua portuguesa é abundante em opções para nos expressarmos de forma exata, profunda, poética se necessário e rica na sonoridade quando verbalizada. A possibilidade de falar ou escrever fluentemente línguas estrangeiras é um património pessoal de uma riqueza incalculável, tanto pelas portas que isso nos abre na vida, como pelas novas perspectivas que nos traz. Uma outra língua, é um outro pensar. Entre isto e utilizar amiúde palavras estrangeiras quando nos expressarmos em português, vai uma distância imensa, como do vinho para a água. [email protected]

Luís Sena-Lino, Consultor de Marketing e Comunicação