Não fora a actriz Maria Rueff a entrar todos os dias em nossas casas, a incentivar-nos para comprar os serviços bancários da Caixa e a Caixa Geral de Depósitos estaria hoje com a imagem absolutamente no charco.

Não tem sentido, não consigo entender, não encontro a mínima justificação para o trabalho altamente negativo da equipa das Finanças.

Como é possível, tantos tiros no pé!!.

O Governo até começou bem. Com uma postura bem delineada sobre a recapitalização da Caixa, para fazer frente à EU que se sabia ter muitas relutâncias políticas sobre a posição do Governo Português.

O Governo deu inicialmente a ideia de que fizera bem o trabalho de casa.

Fundamentara bem em termos da legislação comunitária a sua razão como acionista único da Caixa, de proceder ao aumento de capital com dinheiro próprio, desde que cumprisse as regras a que qualquer banco privado estava sujeito.

Começou a marcar pontos nesta frente de batalha e as instituições comunitárias (DG-Concorrência e afins, BCE) tiveram de aparentar alguma cedência paulatina quando tudo indicava que o choque ia ser bastante forte.

No entanto, ficaram à espreita de oportunidades para dificultar e, muitas vezes, os braços de ferro sucederam-se desde exigências de propostas alternativas pelo BCE à recapitalização proposta pelo governo português para a Caixa, etc.

As conversações técnicas com a EU prolongaram-se no tempo e aqui e ali foram muito tensas.

Quando as condições estavam praticamente de pé para se avançar com o processo de nomeação da nova Administração e para a avaliação do montante de financiamento, surgem do lado português indícios de descarrilamento, começam a aparecer as oportunidades que as instituições comunitárias espreitavam, ou como se diz vulgarmente, a equipa das Finanças do governo português começa a dar o flanco, de forma muito infantil. A inexperiência política e técnica e alguma sobranceria vêm ao de cima.

Sou tentado a crer que este descarrilamento que esteve quase a ser fatal nasceu sobretudo no seio da equipa das Finanças.

Quando se desceu da orientação geral do governo para a equipa das Finanças desempenhar as funções devidas começa a gerar-se um certo caos. Já não era a primeira prova de que a equipa não se saíra bem.

A diferença é este ser um processo em que era determinante marcar posição com habilidade e saber, criar respeito junto das instituições da Comunidade.

As anteriores, Banif, Novo Banco, eram de facto heranças do governo anterior, enquanto a recapitalização da Caixa é um processo genuíno deste governo.

Para além do Ministro das Finanças nada ter dito inicialmente aos elementos do anterior Conselho de Administração sobre a sua substituição, deixando essa comunicação ao presidente indigitado, António Domingues, o que de facto não lhe competia, mas querendo trabalhar teve de assumir essa situação, viria a cometer esta mesma deselegância ao não falar com cada pessoa convidada que tinha de abandonar a lista da nova gestão por imposição do BCE.

São tiros no pé em demasia. E não contente com estes disparates, vem ainda um dos Secretários de Estado da equipa das Finanças, tentar compor a deselegância com o anúncio da mudança da lei das nomeações, criando uma frente alargada anti - governo, desde os partidos seus aliados ao Presidente da República.

No meio de tamanha confusão reinante assiste-se à decisão do BCE de exigir aos indigitados para o Conselho de Administração da Caixa “cursos de reciclagem” no exterior (INSEAD) a 3 dos elementos e de aperfeiçoamento interno a todos.

Não encontro outra palavra. Trata-se de um verdadeiro vexame esta decisão do BCE. É rebaixar demasiado o país.

Um dia destes alguma instituição comunitária vai ter a ideia de propor cursos para Primeiros-Ministros da Europa do Sul!!.

Mas esta é a paga de não ter podido inviabilizar completamente o processo.

Felizmente, uma decisão positiva.

O BCE acabou por aceitar a recapitalização da Caixa com entrada de capital fresco pelo Estado Português, embora ainda com algumas condições de ambiguidade.

Perante esta situação, o Governo Português deveria com toda a clareza informar o país sobre os resultados reais da negociação com o BCE.

Estou na minha, este processo vai ter ainda mais episódios.

João Abel de Freitas