Juvenal Pereira - Que barulheira é esta que se ouve pela cidade todo o dia?
- São as obras na ribeira de Santa Luzia.
- E, por acaso, podes-me dizer que diabos de obras estão lá a fazer?
- Ao certo não te sei explicar. Já ouvi diversas versões, inúmeras opiniões, que não sei em quem devo acreditar. Contudo, a que achei mais fixe, é que se trata de uma linha férrea do Funchal para o Trapiche!
- Finalmente vamos ter um comboio. Valha-nos Santo António!
- Já se sabe onde vão fazer as estações e os apeadeiros?
- Não vão ser feitos, porque ali próximo não existem propriedades ou quintas dos senhores do dinheiro.
- É uma decisão certa. Será uma viagem direta.
Estou desejando que chegue o dia da inauguração. Ver o comboio lotado de população.
- Ao que consta, na viagem inaugural, só vão os que têm contribuído para o engrandecimento da Madeira, dos Açores e de todo o espaço continental. Enfim, de Portugal.
- E será que o Trapiche tem área suficiente para juntar tanta gente?
- Tem. Porque só irão os políticos e governantes de bem. Os que têm contas no “cartório” não vão no comboio.
- Ah, bom, será uma viagem de governantes íntegros, competentes, esforçados, inteligentes, enfim, dos que têm tentado levar este País para a frente…desinteressadamente?
-Exatamente.
-Bom, nesse caso, será uma viagem agradável, extremamente confortável, quer seja feita de noite ou de dia, já que as carruagens irão praticamente vazias.
-Sim, em parte é mais ou menos isso que vai acontecer, desde que só sejam convidados os governantes, políticos, empresários e outras pessoas mais que cumpriram com o seu dever!
- Pois, disso estou também convicto. Se não forem convidados aqueles que só olharam para o seu umbigo, andaram a distribuir dinheiro a “fundo perdido” por empresas duvidosas sob administração de amigos; dos empresários que agradeceram essas gentilezas, recebendo os apoios financeiros, dando depois em “pantanas” com as suas beneficiadas empresas e todo um rol de conhecidos e convencidos “ defensores e benfeitores” do nosso povo e desta nossa democracia, admito que alguma carruagem vá vazia.
-Mas tem de ser, tem de haver essa separação, o Trapiche não suportaria tamanha multidão.
- Ah, sim, nem ocupando a parte exterior da casa de saúde lá existente se acomodava tanta gente.
- Ah, também não deixem vir de lá – porque temos alguns cá – esse tipo de intelectuais, preconceituosos e convencidos, que se alimentam de subsídios, da boa vontade dos amigos, agregados a famílias, coitadas, que não conseguem pagar as dívidas feitas ou herdadas.
- Agora, já que se gasta tanto dinheiro nesta tão curta linha férrea, é pena não abrirmos um troço, em túnel, por exemplo, até à Cancela.
- É verdade. Isso faz falta à malta. E clientes eram o que menos faltava.
- Vamos aguardar e apelar a Nossa Senhora de Fátima que nos conceda essa graça!
- Melhor do que nós, sabe ELA, os muitos que tudo fizeram e continuam a fazer para merecerem uma viagem até a CANCELA!