Em 1844, “Va, pensiero”, o famoso coro dos escravos hebreus da ópera “Nabucco” de Giuseppe Verdi deu asas aos italianos, para se opuserem ao reinado da Áustria.

Em 1899, Jean Sibelius escreveu o poema sinfónico “Finlândia” para, sorrateiramente, contrariar a censura russa no seu país. Em 1928, Kurt Weill adaptou uma ópera-balada popular do século XVIII para expor a sua visão marxista do capitalismo na sua “Ópera dos três vinténs”. Pela ordem direta de Hitler, a partir de 1933, os comícios anuais do partido nazi em Nuremberga começavam com os sons da abertura da ópera “Rienzi” de Richard Wagner. Em 1954, Aram Khachaturian usou o pretexto histórico da revolta de Espártaco para, através da música do seu bailado homónimo, sugerir a oposição ao governo soviético.

Já nos anos 60, a canção de protesto “We Shall Overcome”, conhecida sobretudo pela voz de Pete Seeger, tornou-se o hino oficioso da luta do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos. A canção “Where Have All the Flowers Gone?” do mesmo cantor tornou-se o símbolo de protesto contra a guerra em Vietname. John Lennon’s “Imagine” é o hino mais popular de sempre da paz. Várias bandas na década de 70 chamavam à revolta contra os governos, capitalismo, racismo e problemas sociais. Grupos como U2 granjearam grande êxito combinando a música rock com as suas preocupações políticas, sociais e ambientais.

Resumindo, são omnipresentes, ao longo da história, os exemplos de a música e a política andarem de mãos dadas – às vezes, com o consentimento dos músicos, mas muitas vezes, ainda durante a sua vida, com a sua arte a ser sequestrada e empregada como uma ferramenta de manipulação psicológica, bem estudada e implementada de modo subliminar para moldar as emoções e contornar o raciocínio do público-alvo.

Podemos testemunhar os exemplos mais recentes na corrida presidencial nos Estados Unidos. A campanha de Donald Trump está notoriamente utilizar música e músicos para influenciar o modo de recepção do candidato, sem sequer, aparentemente, se preocupar com pagamento de direitos, licenças, e sem mostrar qualquer cortesia aos artistas envolvidos.

A viúva de Pavarotti muito recentemente expressou a sua infelicidade pelo facto de a campanha de Trump ter utilizado a gravação do célebre cantor da ária “Nessun dorma” de Puccini, a ária essa que termina com a exclamação “Vencerei!”. Isso porque, conforme explicou a família de Pavarotti, os valores humanos defendidos por Pavarotti ao longo da sua carreira “são incompatíveis com a visão do mundo” proposta por Trump,

Os “Queen” várias vezes advertiram o candidato para refrear de uso do tema “We Are the Champions” e declararam o seu uso não autorizado, sobretudo no primeiro dia da convenção republicana. O mesmo aconteceu com o grupo “Earth, Wind & Fire” e o tema “September”, no dia dois da mesma. Os herdeiros do ex-Beatle George Harrison apresentaram queixa depois de Ivanka Trump ter entrado na convenção com os sons de “Here Comes The Sun”. E a história continua… Segue-se, a partir de hoje, a convenção democrata!

E se bem que os “violadores” muitas vezes “esquecem-se” de pagar os direitos de autor, isso não quer dizer, infelizmente, que precisassem da autorização do próprio autor ou dos seus herdeiros: as grandes empresas como a BMI gerem os catálogos dos seus artistas conforme os regulamentos “antitrust” e por isso não podem discriminar no licenciamento. Por isso, as intenções originais dos artistas e da sua arte frequentemente acabam por ser distorcidas ou até invertidas – mas aí não há nada de novo na frente ocidental. Podemos é ficar revoltados ou agastados com o abuso, no entanto, como já George Orwell afirmou: “A própria noção de que a arte não devia ter nada com a política já por si constitui uma posição política.”

Robert Andres