À segunda foi de vez e o Reino Unido escolheu sair da União Europeia. À vista desarmada, poderíamos concluir que os ingleses nunca foram europeus de corpo inteiro - não abriram as suas fronteiras à Europa, não aderiram à moeda única e negociaram uma redução do seu contributo para o orçamento da União Europeia. Mas nem sempre foi assim. Houve uma altura em que o Reino Unido tudo fazia para entrar na União, apenas para ver a porta da Europa fechada por De Gaulle, primeiro em 1963 e novamente em 1967. Dizia o então presidente francês, que a economia britânica era incompatível com o mercado comum e que a sua entrada na União Europeia levaria ao caos europeu. Mudam-se os tempos e mudam-se as verdades. Mas afinal o que mudou na Europa e no Reino Unido? O “brexit” dá-nos algumas respostas e diz-nos tanto sobre os problemas da União Europeia, como sobre a crise que afecta o Reino Unido. Faço parte da geração de portugueses que cresceu na C.E.E., a primeira geração que pode viajar livremente pela Europa e que, principalmente por isso, se sentiu verdadeiramente europeia. Nessa altura, a Europa era sinónimo de paz, de colaboração entre países, de desenvolvimento económico e, com isso, conquistou a opinião pública dos vários países europeus. Foi principalmente isso que mudou. A União Europeia deixou de construir-se com a opinião pública de todos europeus, e com isso esqueceu-se que sem europeus, não há Europa. A Europa não se faz de eurogrupos, de metas do défice, nem de sanções orçamentais, faz-se de pessoas, de cidadãos de 28 países que para abrirem mão da sua soberania nacional, precisam de voltar a acreditar no projecto europeu. Do ponto de vista do Reino Unido, o referendo tem o potencial de acabar com duas uniões: a europeia e a britânica. A primeira cedeu aos argumentos populistas e anti-imigração, curiosamente os mesmos ideias extremistas contra os quais se uniram os países europeus após a 2ª Guerra Mundial. A segunda, tem o seu futuro nas mãos de escoceses, galeses e irlandeses, tentados a escolher entre o Reino Unido e a União Europeia, e ingleses – pelo menos os que votaram pelo “brexit” - sem argumentos para os impedir. Este é o tempo de respeitar a decisão britânica e de não virar as costas ao Reino Unido. Este é o tempo de mais C.E.E. e de menos União Europeia.

João Paulo Marques Advogado