Um dia depois arrancou uma petição para um referendo que anule o de quinta O Reino Unido sai da União Europeia, ganhou uma crise política interna grave e uma recessão quase certa. E a Europa? Ou toma juízo, ou vai definhar até morrer! O Reino Unido está dividido, sem Primeiro Ministro, com o fantasma dos referendos independentistas na Escócia e na Irlanda do Norte e as grandes empresas ponderam a deslocação da sua sede para o centro da Europa para acederem ao Mercado Único. Um dia depois do referendo arrancou uma petição para outro referendo que anule este resultado por aqueles que antevendo as dificuldades futuras pretendem “salvar” o país de um futuro negro. Como anularão um resultado legítimo obtido nas urnas? Estaremos a abrir um precedente? Foi uma lição para uma campanha de medo e mentira? Este resultado é consequência das más decisões políticas de Cameron que pediu um referendo num timing irresponsável para cumprir com uma promessa eleitoral e perdeu. Não tinha outra saída a não ser demitir-se. Os deputados a favor da manutenção centraram a sua campanha no centro de Londres. Um erro partilhado por muitos políticos que estão afastados da realidade dos seus cidadãos e estão demasiado confortáveis nos seus gabinetes. Curiosamente, com a petição para novo referendo discute-se muito mais as vantagens da permanência do Reino Unido na Europa do que antes do referendo. Muitos dos que queriam permanecer mantiveram-se calados nunca esperando o resultado obtido. Hoje arrependem-se. Ver a Libra a cair foi uma enorme chicotada psicológica. Até para aqueles que votaram a favor da saída. Os cidadãos têm de votar ponderamente e isto significa terem consciência que o seu voto tem consequências. Este resultado reflete o aumento do espírito nacionalista no país e o desejo de protestar contra a emigração e suas regalias, algumas fora do alcance dos britânicos. A Europa e o Mundo acordaram em choque com o resultado obtido. Mostram-se impreparados para as consequências políticas e económicas e não há nem houve preocupação de elaborar um Plano B. Era obrigação dos líderes políticos de toda a Europa efetuar uma análise prospetiva com os vários cenários possíveis, preparando-se para toda e qualquer eventualidade. Na última década, a Europa passou a ter políticos carreiristas sem qualquer preparação. Demasiado fracos. A Europa tornou-se soberba. Ficou fascinada pelo seu projeto europeu de paz, o seu tão cobiçado Mercado Unido e ficou cega quanto aos problemas e preocupações do dia-a-dia dos cidadãos. A geopolítica mundial alterou-se de um dia para outro. A Europa perdeu credibilidade e não há certezas quanto ao futuro. Está refém de si própria, mas a solução depende de si. Muda ou não muda? A Europa ainda não conseguiu fazer a plena integração de todos os Estados-membros. Uma onda referendária surge na Europa e face aos problemas estruturais nacionais, a tendência para o protecionismo e o espírito nacionalista é crescente. As pedras de dominó continuam a cair. O Comissário Europeu Britânico apresentou a sua demissão. E os deputados do Reino Unido no Parlamento Europeu? Apesar de grave a desdramatização ocorre o que só prejudica a implementação das medidas necessárias para resolvermos os problemas. Os políticos deveriam ser intelectualmente honestos nos argumentos e tornar claro que o voto tem consequências. Precisamos de políticos com sentido de Estado, que digam a verdade. Devem credibilizar as suas declarações para que não tenham resultado contrário nos mercados. Precisamos de autenticidade. Tornou-se politicamente incorreto falar a verdade porque a diplomacia tornou-se sinónima de mentira e falsidade. Mas também precisamos duma sociedade que valoriza as decisões, que anseia pela verdade e não vai atrás do canto da sereia. Se a opção dos britânicos foi a de sair, então que saiam o mais rapidamente possível. Negociações longas só irão fragilizar a União Europeia. Não fiquem a minar o projeto europeu. E a Europa tem de usar sabiamente esta situação para dar uma lição. Precisamos de rumo, de emprego, resolver a forte pressão migratória e a crise dos refugiados. Julgo que a Europa chegou ao seu ponto de não retorno. Ou deixa de assobiar para o lado e toma as rédeas para construir um projeto de desenvolvimento económico sustentável e de paz para todos os seus Estados-membros, ou adivinha-se o seu definhamento. Fátima Ascensão
Um dia depois arrancou uma petição para um referendo que anule o de quinta
O Reino Unido sai da União Europeia, ganhou uma crise política interna grave e uma recessão quase certa. E a Europa? Ou toma juízo, ou vai definhar até morrer! O Reino Unido está dividido, sem Primeiro Ministro, com o fantasma dos referendos independentistas na Escócia e na Irlanda do Norte e as grandes empresas ponderam a deslocação da sua sede para o centro da Europa para acederem ao Mercado Único. Um dia depois do referendo arrancou uma petição para outro referendo que anule este resultado por aqueles que antevendo as dificuldades futuras pretendem “salvar” o país de um futuro negro. Como anularão um resultado legítimo obtido nas urnas? Estaremos a abrir um precedente? Foi uma lição para uma campanha de medo e mentira? Este resultado é consequência das más decisões políticas de Cameron que pediu um referendo num timing irresponsável para cumprir com uma promessa eleitoral e perdeu. Não tinha outra saída a não ser demitir-se. Os deputados a favor da manutenção centraram a sua campanha no centro de Londres. Um erro partilhado por muitos políticos que estão afastados da realidade dos seus cidadãos e estão demasiado confortáveis nos seus gabinetes. Curiosamente, com a petição para novo referendo discute-se muito mais as vantagens da permanência do Reino Unido na Europa do que antes do referendo. Muitos dos que queriam permanecer mantiveram-se calados nunca esperando o resultado obtido. Hoje arrependem-se. Ver a Libra a cair foi uma enorme chicotada psicológica. Até para aqueles que votaram a favor da saída. Os cidadãos têm de votar ponderamente e isto significa terem consciência que o seu voto tem consequências. Este resultado reflete o aumento do espírito nacionalista no país e o desejo de protestar contra a emigração e suas regalias, algumas fora do alcance dos britânicos. A Europa e o Mundo acordaram em choque com o resultado obtido. Mostram-se impreparados para as consequências políticas e económicas e não há nem houve preocupação de elaborar um Plano B. Era obrigação dos líderes políticos de toda a Europa efetuar uma análise prospetiva com os vários cenários possíveis, preparando-se para toda e qualquer eventualidade. Na última década, a Europa passou a ter políticos carreiristas sem qualquer preparação. Demasiado fracos. A Europa tornou-se soberba. Ficou fascinada pelo seu projeto europeu de paz, o seu tão cobiçado Mercado Unido e ficou cega quanto aos problemas e preocupações do dia-a-dia dos cidadãos. A geopolítica mundial alterou-se de um dia para outro. A Europa perdeu credibilidade e não há certezas quanto ao futuro. Está refém de si própria, mas a solução depende de si. Muda ou não muda? A Europa ainda não conseguiu fazer a plena integração de todos os Estados-membros. Uma onda referendária surge na Europa e face aos problemas estruturais nacionais, a tendência para o protecionismo e o espírito nacionalista é crescente. As pedras de dominó continuam a cair. O Comissário Europeu Britânico apresentou a sua demissão. E os deputados do Reino Unido no Parlamento Europeu? Apesar de grave a desdramatização ocorre o que só prejudica a implementação das medidas necessárias para resolvermos os problemas. Os políticos deveriam ser intelectualmente honestos nos argumentos e tornar claro que o voto tem consequências. Precisamos de políticos com sentido de Estado, que digam a verdade. Devem credibilizar as suas declarações para que não tenham resultado contrário nos mercados. Precisamos de autenticidade. Tornou-se politicamente incorreto falar a verdade porque a diplomacia tornou-se sinónima de mentira e falsidade. Mas também precisamos duma sociedade que valoriza as decisões, que anseia pela verdade e não vai atrás do canto da sereia. Se a opção dos britânicos foi a de sair, então que saiam o mais rapidamente possível. Negociações longas só irão fragilizar a União Europeia. Não fiquem a minar o projeto europeu. E a Europa tem de usar sabiamente esta situação para dar uma lição. Precisamos de rumo, de emprego, resolver a forte pressão migratória e a crise dos refugiados. Julgo que a Europa chegou ao seu ponto de não retorno. Ou deixa de assobiar para o lado e toma as rédeas para construir um projeto de desenvolvimento económico sustentável e de paz para todos os seus Estados-membros, ou adivinha-se o seu definhamento.
Fátima Ascensão