O desporto foi um baluarte e uma bandeira da ostentação da autonomia no regime jardinista. Nada que Alberto João Jardim tivesse inventado, pois os países há muito que procuram fazer do desporto a afirmação de um povo. Foi um modelo aplaudido por uns e criticado por outros, mas que projectou e afirmou a Madeira no espaço nacional. Se bem que os exageros, o excessivo aproveitamento político e, sobretudo, uma falta de critério na aplicação dessa política, nomeadamente no que concerne à escolha da qualidade/mérito em detrimento da quantidade, fossem pecados dessa política desportiva aplicada na Madeira. A crise financeira e depois a aplicação à Madeira do PAEF mudou o paradigma até então vigente. Tudo começou a cair como um castelo de cartas, porque, de facto, tinham sido castelos construídos na areia. Sobreviveu mais ou menos o futebol profissional, na medida em que os seus principais clubes (Marítimo e Nacional) criaram alguma auto-sustentabilidade, mas, no resto, até em comparação com os nossos vizinhos açorianos, passamos a ser os parentes pobres, ao inverso de décadas passadas. Hoje os Açores têm o seu rali pujante no Campeonato da Europa e fortemente apoiado pelo seu executivo regional, que vê neste evento uma forma extraordinária de promover uma região que cresce no sector do turismo. No Voleibol discutem títulos e conquistam títulos nacionais, no ténis de mesa, no hóquei em patins, e por aí fora. Este novo governo regional vê o desporto com algum desdém e não mostra preocupação com o estado vigente. É para o lado que dorme melhor e até já sugere, através das palavras do seu Secretário Regional da Educação, que os clubes profissionais, caminhando para a sua auto-sustentabilidade, poderá dispensar o apoio que tem vindo a dar, mesmo que cada vez em menor dimensão. Até na forma matemática como aplica o dinheiro ainda vigente aos clubes que possam estar na I Liga do futebol profissional, mesmo que sejam três, quatro ou meia dúzia. Naturalmente que cabe ao Governo decidir se deve ou não apoiar o futebol profissional. Será sempre uma decisão politica. Mas é bom que se entenda que aquilo que o governo tinha estabelecido com Nacional e Marítimo eram contratos de programa para divulgação da Região que, por ora, parecem deixar de ter interesse. Admitir que os clubes já dão mais à região (nos impostos que pagam) do que recebem já é um avanço. Mas desta premissa partir para a ideia de que os clubes já não precisam do governo, é uma falácia, quando são estes, fundamentalmente estes, os clubes que mais investem na formação, aposta muito à custa do dinheiro do futebol profissional. Porque não o Governo Regional decidir que as receitas cobradas aos dois clubes mais importantes na Madeira, que são receitas da Região, entrem na Direcção Regional da Juventude e Desporto? E esta DRJD pudesse aplicar estas verbas no apoio ao desporto da Região? Se calhar as coisas seriam vistas de forma diferente. Mas será que interessa a quem decide?.

Emanuel Rosa - Repórter desportivo