O resultado da votação no Reino Unido que vinha a ser aguardado com crescente expectativa à medida que a data designada se aproximava, mais do que uma pronuncia definitiva de que se pudessem retirar conclusões seguras quando ao sentir dos britânicos relativamente á questão que lhe era colocada e que mobilizou durante largas semanas a atenção da nação, deixou no ar uma sensação de descontentamento da nação britânica para com as suas instituições. Sendo certo que as sondagens valem o que valem, a forma como reagiram ao longo das últimas semanas á questão de saber-se se o Reino Unido deveria permanecer ou não na União Europeia foi paradigmática quanto á falta de certezas com que se pronunciaram. Ficando a convicção de que o homicídio da deputada Jo Cox pode ter desempenhado um papel fundamental no sentido da própria votação. Quando a verdade é que as razões que possam ter levado um desiquilibrado mental a agir contra a deputada ao ponto de a ter executado da forma sumária como o fez , acto que provocou uma onda de comoção em toda a Grã Bretanha que não pode deixar de ter tido reflexos na resposta dada pelo povo britânico ao referendo da passada quinta-feira, devia ser separada da questão que determinou a razão de ser do referendo porquanto se tratavam de questões distintas que não se interligavam. Vale dizer que a questão da integração da Grã-Bretanha na União Europeia foi sempre uma questão mal resolvida que nunca entusiasmou os ingleses. Charles de Gaulle nunca manifestou ponta de entusiasmo á adesão britânica sendo de parecer que a França estava melhor na Europa sem a Grã Bretanha do que com os ingleses. Mas o que não aconteceu aquando do acto fundador, veio a ocorrer alguns anos mais tarde, em 1975, quando a União Europeia foi alargada de seis para nove membros. Sendo que os nove já abrangiam a França. O que não aconteceu em vida do velho general, veio a fazer caminho depois da sua morte: O decurso do tempo e a alteração das próprias circunstancias ajudam sempre a diluir mágoas e ressentimentos. A ironia da situação está no percurso feito pela Grã Bretanha: depois de ter ultrapassado desconfianças e até ressentimentos que eram patentes aquando da sua adesão, os britânicos quiseram empreender o percurso inverso e sair da União Europeia. Um caminho que suscitava muitas dúvidas, muitas divisões e grandes sobressaltos. Foi de um modo genérico a estas questões que o eleitorado britânico respondeu na última quinta-feira. Mas uma questão maior aqui avulta: com esta consulta a questão pode considerar-se em definitivo arrumada? Não é seguro que assim seja. O próprio Cameron não teve em relação a esta matéria uma posição isenta de duvidas e de hesitações, acabando a fazer uma defesa convicta do sim á Europa. Mas esta questão não é apenas uma questão inglesa, pois ela abrange igualmente outros interessados. A principiar pelos escoceses, passando igualmente pelos catalães. Tanto uns como outros não se mostram seguros das suas escolhas e podem vir a fechar também a porta á Europa. E depois de escoceses e catalães outros poderão seguir-se. Não pode dar-se por adquirido que a Europa que os pais fundadores tiveram como correspondendo a uma construção para sempre, constitua uma ideia para perdurar. Neste momento os sinais de descontentamento e os fumos de desagregação são visíveis á vista desarmada. Tudo com a agravante de isto não parecer corresponder a uma crise passageira mas a alguma coisa que radica mais fundo e que não reclama simples mezinhas mas uma intervenção pensada e sustentada. Sob pena de o sonho europeu poder vir a desagregar-se conforme tem vindo a ameaçar. E ninguém seguramente quererá ser o seu coveiro! A votação na passada quinta-feira no Reino Unido abriu a primeira brecha depois de todas as hesitações evidenciadas pelas sondagens. Há agora que aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.
Carlos Sequeira Advogado