Os dados foram lançados, mas a Europa demorará muito a digerir os resultados do referendo britânico. 52% do eleitorado britânico decidiu abandonar o projeto de integração europeia. Este referendo deixa um país profundamente fraturado e o seu resultado constitui prova de como os movimentos isolacionistas não providenciam respostas realistas. Deram um passo no desconhecido, com consequências para toda a Europa. Contudo, por mais desconhecido que seja o “day-after”, relativo ao relacionamento com a União Europeia, acredita-se que o Reino Unido continue a fazer parte da coletividade cultural que é a Europa e que extravasa Bruxelas. Um parceiro comercial e cultural único de Portugal, tal como a própria história da Madeira o demonstra. Para além da clara divisão regional, a votação do referendo reflete uma fratura geracional. 75% dos eleitores com menos de 24 anos votaram pela permanência do Reino Unido na União Europeia. Eleitores acima dos 60 anos votaram tendencialmente a favor da saída. Diz-se, com razão, que os políticos não devem prometer paraísos que não conseguem cumprir. Mas também compete ao eleitor escrutinar devidamente essas promessas, especialmente na suposta “era da informação”. A campanha pela saída do Reino Unido usou frequentemente estatísticas erradas e veiculou informação enganosa sobre a participação do seu país na União Europeia. Somente algumas horas depois do anúncio do resultado do referendo, o líder do UKIP, Nigel Farage, foi à televisão dizer que afinal de contas não poderia cumprir a sua promessa de redirecionar 350 milhões de libras para o Serviço Nacional de Saúde, em vez de financiar o orçamento comunitário, ao contrário do prometido durante a campanha. Outro ativista pela saída, Daniel Hannan, disse no rescaldo do referendo que as pessoas que tinham votado pela saída na expetativa de ver uma redução da imigração iriam se sentir defraudadas. E assim se brincou com medos racionais e irracionais dos eleitores. O resultado do referendo britânico não é só um alerta para os restantes Estados-membros face à necessidade de combater populismos fáceis. É também um alerta para a necessidade do próprio eleitor se tornar mais consciente para possíveis armadilhas eleitorais que são colocadas por políticos sem escrúpulos que, por uma vitória a curto-prazo, colocam em risco o futuro das populações.

Rubina Berardo Deputada do PSD-M na Assembleia República