Sabemos do estigma que algumas artes mantêm na cultura enraizada de um povo como o nosso. Se pensarmos, por exemplo, na dança, transpondo para a realidade madeirense, verificamos que nos variadíssimos grupos existentes, em poucos deles se encontra uma criança ou um jovem do sexo masculino. E tenho-me questionado muitas vezes por que razão os rapazes não aderem a esta modalidade das artes? Será que não gostam ou será porque os outros (colegas, amigos, pais, familiares) os ridicularizam quando manifestam vontade em aderir àquelas práticas? Excetua-se desta realidade os grupos de folclore e de danças de salão – estes últimos talvez porque entram em campeonatos - nos quais sempre vão aparecendo alguns rapazes. Já no ballet clássico e na dança contemporânea quase que não vemos rapazes. Esta é uma realidade que não é exclusiva da dança; ao nível do canto também acontece - os coros são maioritariamente femininos; raros são os coros mistos. Ver um coro só de rapazes, como vemos em muitos países da Europa é impensável entre nós. Urge uma mudança de paradigma face a este estigma, que infelizmente vai passando de geração em geração; a ideia de que os rapazes jogam à bola e as raparigas cantam e dançam, em minha opinião, está totalmente errada. É frequente ouvirmos pais que ao serem confrontados com esta situação, reagem de forma perturbada só de pensar que o seu “menino” vai agora aprender a dançar ou a cantar num coro misto. Na área da música e do teatro tudo bem, mas dançar e cantar em coro é coisa de meninas… Na verdade, todos estes preconceitos fazem-me lembrar os tempos dos meus pais e avós de que o homem não fazia trabalhos domésticos (nada de tomar conta das crianças, de cozinhar, limpar a casa, etc…), isso era tarefa das mulheres. Hoje, este paradigma mudou completamente, pois a transformação dos modos de vida e de organização familiar exigiu tal mudança e a distribuição das tarefas domésticas entre os casais (porque ambos trabalham) é hoje uma realidade, inclusive envolvendo os filhos. Ora, esta mudança de mentalidades é basilar em todas as vertentes da vida e transpondo para o contexto educativo, o mesmo deveria acontecer com as Modalidades Artísticas, através das quais ambos os sexos têm muito a ganhar, considerando a pertinência da formação holística e diversificada. Por outro lado, os repertórios poderiam ser muito mais aliciantes e enriquecidos se pudessem contar com os dois sexos. Há um sonho que acalento desde há muito: termos na Madeira um coro masculino com crianças, jovens e adultos, a exemplo de coros de renome internacional. Talvez um dia este sonho se realize, mas para que tal aconteça será necessário deitar abaixo a enorme barreira do preconceito.
Carlos Gonçalves Investigador Integrado do INET-md (FCSH/UNL)