25 abril de manhã no meu parque preferido de Lisboa, bem no centro da cidade, mas à margem do reboliço dos carros e de transeuntes apressados. Café e água pedidos. Um casal na casa dos 40 anos aproxima-se. Traz um menino de 4 anos e uma outra criança ao colo, aparentando poucos meses de vida. O mais velho do casal tem cabelo branco neve, curto, e um ar austero. Usa calças de ganga cinzentas, sem adereços nem exuberâncias. O elemento mais jovem veste macacão de ganga azul, cabelo curto, escuro. Um casal discreto e uma família feliz naquela manhã solarenga de abril, no parque da minha esplanada predileta e das brincadeiras de cães e de crianças. Sobretudo de cães. Aparentemente tudo normal. Aparentemente não, tudo normal mesmo. Eu com o Diário de Notícias (de Lisboa) na mão, a ler uma entrevista, mais uma, sempre acutilante, sempre repleta de mensagens simples e certeiras, sempre bem humorada e alegre, de frei Bento Domingues, sobre o 25 de abril. E dei por mim a pensar que há coisas fantásticas e coincidências bestiais. No Dia da Liberdade, manhã de Sol amena, o paraíso no meio de Lisboa, um café bem tirado, uma leitura de jornal que me faz parar e refletir (acontecimento cada vez mais raro nos dias de hoje quando pego nos jornais), e um casal homossexual a passear e a cuidar da sua prole. Naquela manhã de luz, emergente da aclamada luminosidade única de Lisboa, vivia em esplendor regozijo “o dia inicial, inteiro e limpo”, que Sophia tão bem celebrizou, na alusão à revolução dos Cravos, depois de 40 anos de ditadura obscura. O sol e a sombra. Partilhava a liberdade daquele dia com as ideias progressistas de um dominicano (Frei Bento) que faz da vida uma festa, mesmo que algumas das suas crenças choquem com a doutrina oficial da Igreja e dos “bons costumes” sociais. E à minha frente o casal de mulheres, a passear os seus filhos. À sombra desta manhã de luz reside (ainda) o preconceito, a dificuldade de se respeitar, de se aceitar a diferença, sem clichês. Enfim, a mesquinhez mental que subsiste quatro décadas após a madrugada “onde emergimos da noite e do silêncio”. Convém não esquecer que antes de abril de 1974 as mulheres eram uma espécie de semipessoas, que dependiam da vontade e dos caprichos do homem. Dias depois e em conversa com amigos, na mesma esplanada, veio à baila os 40 anos de “ditadura” que se registaram na ilha depois do 25 de abril e de como esse período dificultou uma desejável mudança de mentalidades, no âmbito dos direitos individuais e sobretudo no que respeita à igualdade dos sexos. Há muito por fazer e conquistar na nossa região, que é pequena, que viveu fechada sobre si própria durante muitos anos e com uma sociedade acorrentada a conceitos consubstanciados na “moral e nos bons costumes”, no “diz que diz-se” e no “parece bem”. Liberdade tem de rimar com tolerância, aceitação, democracia, participação, igualdade. O debate sobre os designados “temas fraturantes“ ou emergentes é por isso fundamental e determinante. É de aplaudir, por isso, a iniciativa recente da deputada do PSD/M que lançou a discussão sobre a eutanásia na Assembleia Legislativa da Madeira. Todos temos direito à opinião, na convicção plena de que a nossa liberdade acaba no momento em que começa a do nosso vizinho. 42 anos após a libertação das amarras da ditadura é tempo suficiente de assimilarmos isso, sem tibiezas.

Roberto Ferreira