No próximo dia 23 de junho realiza-se o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE).
Não é uma questão de somenos, pois este referendo para além de determinar o futuro deste país, irá determinar também o futuro da UE. Não está em questão a sua extinção, mas sim a sua credibilidade internacional e a confiança de todos os europeus no processo de construção europeia.
Dos muitos compatriotas nossos que emigraram por não encontrarem trabalho na nossa terra corre informação nada animadora quanto ao possível desfecho deste referendo. O “Não” tem demasiados adeptos. A maioria das grandes empresas britânicas está a levar muito a sério o risco de o Reino Unido abandonar a UE e muitas estão já a fazer planos de contingência. Necessitam de exportar e sabem que a sua city de Londres beneficia da ligação europeia Paris-Bona-Frankfurt. Se o Reino Unido permanecer na UE será por um fio de retrós.
Curiosamente foi Cameron quem mais apoiou a realização deste referendo, manipulando a opinião pública com vista a aumentar a sua notoriedade política. Fez finca-pé nas instituições europeias e agora faz campanha pela permanência na UE, tendo apelado aos jovens a votarem no referendo, alertando para o facto que seriam eles os mais afetados com uma saída da UE.
Pensava ele que tinha controlado todo o tabuleiro de xadrez, mas fugiu-lhe do controlo com o escândalo da associação de seu pai aos “Panamá Papers” e esqueceu-se de toda a polémica que criou junto das instituições comunitárias onde perdeu credibilidade para defender a permanência na Europa. Esqueceu-se que o mundo está global e não lhe permite controlar todas as movimentações do xadrez.
Para a Europa, a saída do Reino Unido põe em causa a sua credibilidade internacional. Pessoalmente, espero que este referendo constitua um abanão, pois a Europa está a esquecer-se das suas origens. A Europa visa a paz e para isso consubstancia a sua atuação no desenvolvimento económico e social dos seus Estados-membros (EM).
Logo após as duas guerras mundiais, os políticos europeus de então, tendo vivenciado a destruição das duas guerras mundiais quiseram deixar um legado de paz às gerações vindouras. Concluíram que só se poderia manter um clima de paz se se unisse economicamente e politicamente os países. Sabiam que desemprego, más condições de trabalho, abuso laboral, desestruturação da família, fome e precariedade conduziam a revoluções e distúrbios nada favorecedores ao desenvolvimento económico dos seus países e consequente manutenção do clima de paz.
Foi com esta clareza de pensamento que criaram a Comunidade Económica Europeia com a finalidade de estabelecer um mercado comum europeu e pauta aduaneira comum, uma política conjunta para a agricultura, políticas comuns para o movimento de mão-de-obra e para os transportes, e fundava instituições comuns para o desenvolvimento económico.
O desenvolvimento económico foi tão grande que vários países da Europa foram paulatinamente aderindo e hoje a Europa é constituída por 27 EM.
No cenário político europeu existem hoje demasiados políticos carreiristas sem visão nem grandes conhecimentos técnicos. A ausência de qualidade e de visão dos que nos governam é que nos conduziu à situação que vivemos. A Europa está “doente”. Não está a conseguir resolver o problema do desemprego e não está a conseguir resolver o problema dos refugiados e está na rota dos que fogem da Ásia, do Médio-Oriente e do Norte de África à procura de paz e duma vida melhor.
Que o exemplo de Cameron não desmantele todo o trabalho realizado ao longo deste tempo.
Fátima Ascensão