Devo fazer um ponto prévio: sei que não se pode generalizar. Que nem tudo é igual, que nem tudo o que parece é, que nem todos perseguem os mesmos objectivos. Sei isso tudo. Mas, feita essa ressalva, não posso deixar passar em branco mais um entre muitos outros episódios estranhos que envolvem algumas das nossas casas do povo. Percebo a razão da criação destas colectividades, sobretudo as mais antigas. Foram outros tempos, a realidade era outra. Percebo o papel importante que algumas delas ainda hoje têm na dinamização das localidades e das suas gentes. Das tradições, da cultura local. Até mesmo de um certo bairrismo salutar. Mas tenho dificuldade em entender os processos estranhos e os caminhos estreitos em que se movimentam algumas casas do povo. Só para recordar o exemplo mais recente, publicado na nossa edição de hoje, não compreendo como pode uma casa do povo como a do Santo da Serra, estar sem eleições desde 2004. Estamos em 2016 e a última eleição foi para um mandato de três anos. Já passaram 12! Também tenho dificuldade em perceber este clima de absoluta harmonia entre os dirigentes das casas do povo e outros dirigentes locais. A bonança é tanta que chega a ser bem maior do que a apregoada cantiga que proclama ‘paz, pão, povo e liberdade’. E isso, não sendo mau, ajuda a perceber a prática actual de algumas casas do povo, perfeitamente identificadas e alinhadas com o poder dominante ao longo de mais de quatro décadas nesta terra. Obviamente por limitação minha, também não entendo por que razão cidadãos mais arredados do poder, ou mesmo aqueles que mais se identificam com a oposição política, não integram órgãos das casas do povo. Não se candidatam, não apresentam alternativas, não contestam, não criticam, nem elogiam. Deixam andar. Nesta desinteressada Madeira, e sobretudo nesta pasmaceira, ganha cada mais espaço uma espécie de duplicação do poder local. Há as juntas de freguesia, mas também há as casas do povo. Na maioria dos casos, o entendimento é quase absoluto entre dirigentes da junta e da casa. Em algumas situações, até são os mesmos. E em outros casos até há transferências de dinheiros de um para o outro lado dos dois braços deste poder local. É certo que desde 2013 algumas coisas mudaram. Deixou de haver tanta amizade e cumplicidade, no bom sentido, entre as casas do povo do poder e as juntas da oposição. E talvez essa nova geografia política pós-2013 explique a razão de novas casas do povo e de novos projectos de dinamização local onde o poder regional esmoreceu. Mas também é certo que continua a ser incompreensível este desinteresse da oposição que se manifesta como uma aparente aceitação táctica de um poder local paralelo que não se submete a sufrágio de todos os cidadãos da localidade. Que, como se vê no Santo da Serra, pura e simplesmente nem vai a votos. A verdade é que as casas do povo funcionam quase como clubes privados que perseguem objectivos públicos mas onde manda apenas um punhado de sócios. Não se conhecem campanhas de angariação de novos associados, não há propaganda para as eleições - às vezes nem há eleições - há direcções que esperam meses para ser empossadas. E há muito dinheiro envolvido e o interesse confessado pelo novo governo regional em dar ainda mais apoios a estas entidades. E assim se perpetua um poder local e localizado. E assim se asseguram não apenas as verdadeiras casas do povo, como também as não menos verdadeiras casas do 'polvo' cujos tentáculos apanham toda a localidade e arredores. Volto ao início: é evidente que não se pode generalizar, que há projectos interessantes a decorrer e que merecem ser acompanhados, que há pessoas seriamente empenhadas a trabalhar pela localidade. Mas isso não impede a necessidade de um maior crivo, de mais transparência e, sobretudo, de uma maior abertura. Das instituições e dos cidadãos. E até dos partidos e movimentos políticos da oposição. Se se atropelam candidatos a candidatos a deputados e autarcas, alguns deviam pensar em começar pelas casas do povo, pelos clubes, pelas associações de pais, pelas confrarias e outros órgãos de base da cidadania. Caso não tenham ainda reparado, foi esse o percurso que fizeram muitos dos protagonistas do poder.