No desporto, na escola, na universidade, na política, nos serviços públicos, na família, no grupo social e em tantos outros locais e contextos, facilmente encontramos “pequenos fundamentalistas” (reais ou potenciais). Não têm todos as mesmas caraterísticas. Existem muitos tipos e estilos, contudo uma das caraterísticas que porventura mais os distingue é uma certa tendência para a “irracionalidade” que os faz acreditar que são uma espécie de iluminados num mundo de “totós”. Muitas vezes, essa tendência fundamentalista, contribui para que vejamos pessoas “inteligentes e respeitáveis”, com provas dadas em diferentes áreas, a “perder a racionalidade” quando defendem a família, o clube, o partido, a religião, etc. Não confundir esta “perda de racionalidade” com os “lambe botas” e os interesseiros que tudo fazem para agradar a quem tem o poder. É, assim, normal (mas não deveria ser) assistirmos a uma espécie de defesa do indefensável, caindo-se, por vezes, no ridículo. Aliás, com os meios tecnológicos que hoje temos à nossa disposição facilmente podemos, por exemplo, identificar as posições que cada um tomou ao longo do tempo e perceber quando se está perante uma alteração coerente de opinião, ou perante uma “prestação de serviço” a mando de alguém ou de algo … Há quem seja o pior inimigo de si próprio. Por vezes é possível refutar o que alguém fez ou defende com as posições e os argumentos que o próprio utilizou no passado... Se há contextos onde abundam posições fundamentalistas, eles são o desporto, a escola e a universidade. O que, convenhamos, é perigoso uma vez que têm um papel estruturante na formação do Homem. De uma forma sucinta, diríamos que as posições se extremam entre dois polos, por um lado a utilização do desporto, da escola e da universidade como meios de conservação e manutenção do que está instituído, por outro lado a possibilidade de se tornarem polos atractores de dinâmicas de transformação e mudança. Neste tipo de discussão e consequente tomada de decisão, ninguém consegue ficar de fora, queira-se ou não todos participamos, seja por ação seja por omissão. Desta forma seria desejável que as opiniões e tomadas de posição fossem feitas com a consciência das implicações que daí poderão advir. Porém, quando o processo pedagógico dominante ainda é o do século XIX, centralizado nos professores e nas matérias, estamos conversados… Entretanto, sobre o direito à opinião, coloco à vossa consideração um pequeno excerto de um artigo de Nuno Lobo Antunes, publicado no Expresso de 12 de março (p.35): «Ter opinião dá muito trabalho. Exige estudo, pesquisa, reflexão e experiência do assunto sobre o qual se opina. Contudo, assiste-se nos média e redes sociais à expressão da mais profunda ignorância, exibida sem qualquer pudor, porque todos temos direito a uma ‘opinião’. Não temos, quando a nossa preparação não permite fazer afirmações cuidadosamente fundamentadas. ‘Devemos respeitar as opiniões dos outros’, é um lugar comum. A verdade, porém, é que não devemos respeitar a opinião dos mal informados, tendenciosos, incompetentes ou enviesados …»

Hélder Lopes Professor da Universidade da Madeira