Também assobiámos para o lado com um milhão e meio de armas sem registo Uma estranha doença contaminou a nossa sociedade tal como escreveu José Saramago no seu livro «Ensaio sobre a Cegueira». Uma cegueira incurável por medicamentos. Revela-se não só a nível regional como a nível europeu. Há precisamente 12 dias, Bruxelas foi alvo de um ataque terrorista que comoveu o mundo. A Alta Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa e Segurança comoveu-se e chorou impotente perante o Mundo. Mas que medidas tomaram? A Europa está numa encruzilhada e não decide. Todos os altos representantes da Europa adotaram a estratégia de adiar grandes decisões para depois do referendo da permanência ou não do Reino Unido na UE. Esquecem-se que não decidir também traz consequências. A França, a 17 de novembro último, invocou no Conselho de Ministros da UE, a cláusula 42.7 do Tratado da UE - a chamada Cláusula de Mútua Defesa, na qual todos os países da UE são chamados a ajudar um Estado que tenha sofrido agressões militares em seu território. Na prática, toda a Europa, desde aí, passou a estar em guerra contra o Estado Islâmico. Com medo das palavras e numa atitude de negação da realidade, algumas vozes da UE, alegando a política de neutralidade de alguns países, defenderam que não foi feita nenhuma declaração de guerra. O que aconteceu nos ataques em Bruxelas? Continuam a pensar que foi um ataque a um país ou visava a Europa no seu todo? Que tipo de acção terrorista cura esta cegueira? A 25 de janeiro, a Europol alertou que o Estado Islâmico planeava ataques em grande escala na Europa. Nenhum Estado-membro está em segurança. A crise dos refugiados agrava toda esta situação. No início desta vaga migratória tudo se facilitou, permitindo a entrada de “Cavalos de Tróia” em território europeu, com muitos políticos em “politiquice” por toda a Europa à custa da desgraça alheia. Hoje a criação dos campos de refugiados em condições miseráveis de sobrevivência emocionam qualquer ser humano. A resposta não está no encerramento das fronteiras ou no fim do Acordo de Shengen, ou na criação dos campos de refugiados. Também não é solução utilizar a Turquia como “Estado Tampão” em troca de ajuda financeira ou de uma possível adesão à UE. Temos de ser solidários mas prudentes. E nunca ausentes. Tudo o que ocorre hoje é consequência do assobiar para o lado, durante anos, no seio da ONU sobre o que se passava nos países de origem dos refugiados. Quem lucrou e está a lucrar com esta desgraça? Por ventura muitos fabricantes de armas protegidos por alguns governos europeus, americanos ou russos. Podemos perguntar que temos nós com isso? Não sejamos também cegos. Esta questão diz respeito a todos. Também assobiámos para o lado com um milhão e meio de armas sem registo e alguns terroristas com a nossa nacionalidade. Como é que um Estado Islâmico conseguiu atrair jovens portugueses a aderirem ao terrorismo? Se calhar, por cá, fomos deixando de ver a realidade, vivendo numa cegueira que não escuta outras opiniões, nem tem inteligência para ouvir o silêncio. O excesso de palavras agradáveis são mudas na substância e autistas na capacidade de ler a realidade. Fátima Ascensão

Também assobiámos para o lado com um milhão e meio de armas sem registo

Uma estranha doença contaminou a nossa sociedade tal como escreveu José Saramago no seu livro «Ensaio sobre a Cegueira». Uma cegueira incurável por medicamentos. Revela-se não só a nível regional como a nível europeu. Há precisamente 12 dias, Bruxelas foi alvo de um ataque terrorista que comoveu o mundo. A Alta Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa e Segurança comoveu-se e chorou impotente perante o Mundo. Mas que medidas tomaram? A Europa está numa encruzilhada e não decide. Todos os altos representantes da Europa adotaram a estratégia de adiar grandes decisões para depois do referendo da permanência ou não do Reino Unido na UE. Esquecem-se que não decidir também traz consequências. A França, a 17 de novembro último, invocou no Conselho de Ministros da UE, a cláusula 42.7 do Tratado da UE - a chamada Cláusula de Mútua Defesa, na qual todos os países da UE são chamados a ajudar um Estado que tenha sofrido agressões militares em seu território. Na prática, toda a Europa, desde aí, passou a estar em guerra contra o Estado Islâmico. Com medo das palavras e numa atitude de negação da realidade, algumas vozes da UE, alegando a política de neutralidade de alguns países, defenderam que não foi feita nenhuma declaração de guerra. O que aconteceu nos ataques em Bruxelas? Continuam a pensar que foi um ataque a um país ou visava a Europa no seu todo? Que tipo de acção terrorista cura esta cegueira? A 25 de janeiro, a Europol alertou que o Estado Islâmico planeava ataques em grande escala na Europa. Nenhum Estado-membro está em segurança. A crise dos refugiados agrava toda esta situação. No início desta vaga migratória tudo se facilitou, permitindo a entrada de “Cavalos de Tróia” em território europeu, com muitos políticos em “politiquice” por toda a Europa à custa da desgraça alheia. Hoje a criação dos campos de refugiados em condições miseráveis de sobrevivência emocionam qualquer ser humano. A resposta não está no encerramento das fronteiras ou no fim do Acordo de Shengen, ou na criação dos campos de refugiados. Também não é solução utilizar a Turquia como “Estado Tampão” em troca de ajuda financeira ou de uma possível adesão à UE. Temos de ser solidários mas prudentes. E nunca ausentes. Tudo o que ocorre hoje é consequência do assobiar para o lado, durante anos, no seio da ONU sobre o que se passava nos países de origem dos refugiados. Quem lucrou e está a lucrar com esta desgraça? Por ventura muitos fabricantes de armas protegidos por alguns governos europeus, americanos ou russos. Podemos perguntar que temos nós com isso? Não sejamos também cegos. Esta questão diz respeito a todos. Também assobiámos para o lado com um milhão e meio de armas sem registo e alguns terroristas com a nossa nacionalidade. Como é que um Estado Islâmico conseguiu atrair jovens portugueses a aderirem ao terrorismo? Se calhar, por cá, fomos deixando de ver a realidade, vivendo numa cegueira que não escuta outras opiniões, nem tem inteligência para ouvir o silêncio. O excesso de palavras agradáveis são mudas na substância e autistas na capacidade de ler a realidade.

Fátima Ascensão