José Edgar M. da Silva Ultimamente as notícias sobre a saúde, incidem mais ruptura de stocks: material e equipamento. Mas na verdade, o que nós falta na saúde, é algo muito maior, crucial e tem origem na descapitalização dos recursos humanos, com consequências graves na área do conhecimento e da sabedoria em saúde, que abocanham o instinto e a capacidade de prever, destroem o “olho clínico”. Podemos ter falta de tudo, podemos até não ter os meios mais modernos, mas se existir “olho clínico” alimentado por conhecimento, sabedoria, suportado por formação continua, melhoria permanente, aposta na peritagem das equipas e continua aquisição de experiência profissional, existe a certeza absoluta, que aquilo que nós falta, rapidamente é delegado para segundo plano pela arte do desenrascar pelo engenho e improviso. Falta na saúde lideranças intermédias fortes, focalizadas na satisfação do cliente e centradas na identificação dos elos mais fracos das equipes; não para avaliar ou punir, antes para identificar áreas onde se deve insistir e investir, na formação e aquisição de experiência. Falta humanismo, respeito pela ética e por códigos deontológicos, a “paz podre” que hoje se vive na saúde é resultado de décadas em que vigorou a noção de impunidade, tal tem os dias contados, hoje o mérito e a competência, assim como projectos de desenvolvimento profissional, ditam as progressões na carreira sujeitas aos objectivos estratégicos da saúde, nas políticas e na sua consequente empresarialização. Tenho ao longo de 30 anos assistido a um delapidar do sector da saúde, sujeito mais a lobbys profissionais que direccionado para a satisfação do cliente que exige segurança e qualidade. Os hospitais empresa, com a obrigação de prestar um serviço público, têm de aceitar que “os donos dos serviços” acabaram e que a cooperação multidisciplinar assente numa rápida comunicação entre departamentos é crucial Os sistemas de informação hoje, expõem friamente na saúde pela partilha de processos e intervenções multidisciplinares o rigor e a competência, expõem inclusive eventuais, violações directas ou indirectas á ética e aos códigos deontológicos. É isto que nós falta na saúde, muito mais grave que falhas pontuais de equipamento e materiais, é urgente disciplinar educar e formar. É pena que quem agora estagia no Sesaram, este não seja o melhor campo de estágio, idóneo e promotor de aquisição de experiências profissionais que obrigatoriamente tem de ser condimentadas pelo respeito integral de valores morais éticos e deontológicos. Quando se julga que prescrever é uma “ordem directa” e não percebe que pode colidir com a objecção, eventual de consciência de quem administra e com o assentamento escrito e assinado de quem consente pela informação a que tem direito por lei, a que essa prescrição tenha lugar e seja finalmente executada. Portanto desenganem se os cidadãos que julgam que os problemas da saúde se irão resolver com reposição de stocks, unidades móveis de exames, e até um novo hospital, o problema maior na saúde exige intervenções cujo resultado se verifique em mudanças de comportamento. Mas quando o registo biométrico levantou a celeuma que produziu e se viu, imagine-se promover mudanças estruturais, que exigem doses de humildade e elevado sentido de profissionalismo.