Dizem que o bater das asas de uma borboleta pode desencadear um tufão no outro lado do mundo. Este pensamento faz parte da teoria do caos e pode ser aplicado a inúmeros setores do conhecimento, desde meteorologia, física, biologia às ciências não-convencionais. A borboleta simboliza hoje, Dia da Liberdade, a metamorfose de um casulo ditatorial para uma democracia inclusiva. Tal como a borboleta não vive num vácuo, celebrar o 25 de abril extravasa as nossas fronteiras nacionais. Evidentemente que o ponto de partida será sempre a conquista da democracia em Portugal perante o percurso histórico do nosso povo, mas não se pode resumir a essa perspetiva. A força gerada pela nossa democracia, tem de contar para o bem global, contra os ventos do caos que fustigam a aridez cívica. Contra um cenário internacional de incerteza democrática, celebrar a Revolução dos Cravos, assume uma importância cada vez maior, uma vez que se transforma no necessário exercício de alerta perante os perigos que se formam no panorama internacional. A Câmara de Deputados do Brasil foi recentemente palco de um rito que nos era desconhecido. Passado a inicial perplexidade, apercebemo-nos o quão frágeis as instituições democráticas podem ser, perante a pegajosa teia da avareza sem escrúpulos, num cenário onde ninguém é inocente. O oceano que nos separa não serve de imunizador automático. O triste espetáculo no Brasil só não poderia acontecer em Portugal, porque não temos o mecanismo de impeachment. Ponto final. E não precisamos de embarcar num voo transatlântico para observarmos atropelos à herança democrática. Bastam curtos voos para Budapest ou Ancara para percebermos que mais certo que o avanço civilizacional é a certeza de retrocessos validados por lentas e sub-reptícias mudanças constitucionais na estrutura interna de um país. Borboleta ou tufão, ninguém está imune. Que o cravo que trazemos hoje na lapela se transforme num símbolo não só da conquista democrática, que ancore as vitórias, que nos alerte para os perigos à navegação democrática nacional, mas que também faça florescer a ambição democrática junto de todos os povos do mundo.

Rubina Berardo Deputada do PSD na AR