Há cinco anos, no início do mês de Abril, aterrei em Lampedusa, uma ilha de 20 quilómetros quadrados, mais ou menos com o Porto Santo. As atenções estavam viradas para lá. Além dos cinco mil residentes chegaram a estar mais de seis mil indocumentados que cruzaram o Mediterrâneo de barco. A “Primavera Árabe” despertara no final do ano anterior. Primeiro na Tunísia, depois noutros países houve quem saísse à rua a reclamar “liberdade, “eleições livres e justas”, “democracia”. Propagara-se, pelo menos no Ocidente, a ideia de que a autocracia e o extremismo religioso estavam se ser rejeitados por uma juventude mais aberta, com acesso às novas tecnologias e à internet. Com a queda do Presidente Ben Ali, a Tunísia descuidara as fronteiras. Com a guerra civil, o mesmo fizera a Líbia, que funcionava até então como um tampão migratório. Nos primeiros três meses de 2011, mais de 23 mil pessoas tinham desembarcado nas ilhas Pelágias, situadas entre a Tunísia e a Sicília. Entre os imigrantes económicos viajavam candidatos a asilo, oriundos da Somália e de outros países em conflito, muitos dos quais tinham aguardado anos por uma oportunidade para cruzar o Mediterrâneo. O que então sobressaia era esperança – de arranjar trabalho, de ganhar dinheiro, de fazer vida. Olho agora para as imagens das pessoas que tentam chegar à Europa e só noto desespero. Talvez os mais avisados adivinhassem que o grito por democracia que se ouvia na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria seria abafado pelo autoritarismo militar e pela ideologia islâmica. Dirão que ser capaz de reunir gente numa praça não é igual a ser capaz de construir um estado de direito. E a verdade é que é tudo muito mais complexo do que nós, a esta distância, no conforto dos nossos sofás, conseguimos entender. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, há 6,6 milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria e 4,8 refugiadas nos países vizinhos – 1,9 milhões estão registadas na Turquia; 2,1 milhões no Egipto, no Iraque, na Jordânia, no Líbano. E é nesses países, de duras condições, que milhares têm recorrido a traficantes e a contrabandistas para tentar chegar à Europa. Não é só a quebra de esperança na resolução do conflito que se eterniza na Síria, sem que países-chave fechem um acordo para lhe pôr fim. É também o corte da ajuda humanitária enviada pela comunidade internacional para os países limítrofes. E a ausência de mecanismos legais próprios para as pessoas que têm necessidade de protecção internacional chegarem à Europa. Talvez fosse bom deixarmos de falar em “valores” e em “solidariedade”. Talvez fosse bom começarmos a falar, simplesmente, nas obrigações dos Estado que assinaram a convenção de 1951. É urgente atalhar as causas do desespero de quem assim nos chega.
Ana Cristina Pereira Jornalista do Público