A cultura de um povo ou de uma localidade está intimamente ligada às suas raízes e memórias e, por vezes, pouco respeitada e valorizada resultando numa marginalização do sector das artes e ofícios. A ideia da globalização de tudo e de todos tornou-se descabida e hoje sentimos a necessidade de voltar a valorizar a nossa pertença a um determinado sítio e consequentemente encontrar a nossa identidade perdida. Se por um lado é importante preservar a nossa cultura através da memória, tradições, costumes e hábitos importa também apostar na nossa nova geração com a sua criatividade e inovação que pode e bem resultar numa readaptação de inúmeros aspectos ligados à nossa cultura popular e ao mesmo tempo inovando como forma de reforçar a sua e nossa identidade presente. Na Madeira, infelizmente, o nosso artesanato estagnou no tempo porque não houve uma verdadeira aposta na valorização daquilo que é nosso e genuíno. Falta-nos líderes competentes para implementar estratégias ao nível da inovação, da criatividade e principalmente na criação de parcerias entre diversos intervenientes apostando na formação dos nossos jovens, na sustentabilidade e na criação de concursos, exposições, feiras e encontros ligados a este nosso património. Estas e outras iniciativas poderiam ser canalizadas para as diferentes escolas criando novos cursos munidos de áreas satélites capazes de catalogar, projetar e consequentemente inovar o nosso artesanato onde seria possível preparar novos artesãos qualificados com conhecimentos de origem dos materiais e com bagagem suficiente para explorar criativamente seus produtos quer ao nível do design, quer da qualidade final do produto. Tudo isto complementando com a área do Marketing nomeadamente o digital de modo a promover e escoar o nosso artesanato. Recentemente no telejornal da RTP Madeira anunciaram a abertura de um concurso para a renovação da obra de vimes na região e a possibilidade de convidar a artista Joana Vasconcelos para a criação de um trabalho artístico. Ao invés de convidarem sempre os mesmos artistas até porque estes normalmente já estão inseridos num mercado o qual o seu valor é bastante elevado e isso não necessariamente possa refletir no objetivo pretendido, porque não abrir concursos com prémios aliciantes e esperar pelos resultados por forma a poderem optar por boas propostas? O Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM) como entidade que tutela o sector pouco criou para incentivar a criação de novos produtos, a salvaguarda das técnicas de outros tempos, a inovação de alguns produtos tradicionais que não singraram no mercado por estarem ultrapassadas. Faltou o acompanhamento aos artesãos e aos comerciantes bem como a criação de parcerias com várias instituições locais e nacionais. O artesanato do vime tem muita potencialidade, mas ao longo do tempo foi pouco apoiado de forma a criar condições para a comercialização tanto na região como no exterior faltando uma boa estratégia de marketing da nossa ilha além fronteiras. Falhou essencialmente nas principais formas de escoamento do produto nomeadamente em relação aos turistas que nos visitam quer pela via marítima, quer pela via aérea que em ambos os casos vêm-se condicionados ao volume e peso da sua bagagem não havendo exceções que poderiam e muito bem serem negociadas entre o Governo Regional da Madeira e as diferentes companhias. Parece que ultimamente os nossos governantes descobriram que a cultura afinal é lucrativa, quando, por exemplo, em França a cultura há muito que contribui para a sua economia além de ser um importante alicerce cultural para o seu povo. É mais que evidente que uma verdadeira aposta na educação e na cultura será sempre um bom investimento onde não se pode exigir dividendos imediatos e muito menos pensar que ao qualificarmos a nossa gente estamos politicamente a dificultar a tarefa de obter votos pois como diz José Mujica, político uruguaio: “Vamos investir primeiro em educação, segundo em educação, terceiro em educação. Um povo educado tem as melhores opções na vida, e é muito difícil que os corruptos mentirosos os enganem”. [email protected]
Patrícia Sumares