Sempre houve crianças maltratadas e maltratantes reflexo de histórias de vida marcadas por violência, muitas vezes aceites ou conscientemente despercebidas pelos envolventes, sejam ou não familiares. Enquanto as feridas não saram as crianças tentam proteger-se do que as magoa e faz sofrer. Como resultado as suas competências intelectuais ficam muito aquém do seu potencial base, distraem-se com mais facilidade e são na sua maioria inquietas. Só por isto, e apesar de serem vítimas por herança de um sistema disfuncional que não conseguem alterar, incorporam outro problema, passam a pertencer, na escola, ao grupo das crianças com necessidades educativas especiais, que ninguém sabe muito o que fazer para obter os resultados esperados, dando origem a frustrações em cadeia. Estes meninos (as) são de facto especiais, aprenderam a sobreviver em ambientes que muitos adultos só conhecem do ecrã com a possibilidade de mudar de canal a qualquer momento. Mas eles (as) estão lá de carne e osso em tempo e cenário real, sem comando, nem prémio final, oferecido por uma qualquer apresentadora. A violência, a humilhação, a dor, o desconforto, o medo, o pânico e o terror são a almofada onde se deitam todos os dias sem saber o que vai ser o amanhã. As suas rotinas são a incerteza de um dia pior do que o outro e o prémio o sonho de um dia diferente. Aceitá-las, criar espaço para que possam exprimir os seus gostos, os seus desejos, os seus sonhos, acompanhar os seus interesses, dar um sentido às suas vidas, é a alavanca para que a motivação e a lógica do processo de aprendizagem possa vir a surgir. Quando chegam a jovens tornam-se ainda mais vulneráveis. Iguais ou semelhantes nas histórias que carregam e na ausência de um terreno próprio que sintam verdadeiramente como seu, em grupo sentem-se mais fortes, mais protegidos, incluídos. O prazer que emana da liberdade de se sentirem gente, não permite que se motivem a voltar para espaços onde se sentem reprimidos e massacrados nas suas dificuldades resultantes de tantas outras que não podem dominar nem resolver. Sendo que todos partilham dificuldades e necessidades idênticas, protegem-se e confortam-se em grupos de risco integrados na comunidade. Urge parar, repensar as práticas e as interacções entre os diferentes sistemas. Para que resulte é preciso enfrentar padrões rígidos de funcionamento, deslocar o absolutismo das teorias da aprendizagem e do desenvolvimento, desafiar o óbvio, transgredir nos modelos de intervenção, ousar, criar, oferecer-se para ser pertença, saltando fora do desconforto e do medo. Urge começar.
Manuela Parente Psicóloga