Somos peões indefesos no meio de uma espécie de guerra global Domingo de Páscoa. Igreja do Colégio, na praça do Município. O cónego Fiel de Sousa chama para o altar familiares e amigos do senhor Sardinha e do jovem Francisco, ambos falecidos na semana anterior. Tenta consolá-los da melhor forma, apoiando-se no calor humano emanado pelos crentes presentes naquele magnífico templo do centro da nossa cidade. Se o senhor Sardinha morrera já com uma idade avançada, Francisco partiu na flor da idade. Naquele instante e por mais voltas que desse, o atencioso sacerdote esbarra sempre na questão que atormentava aqueles jovens pais, os irmãos e os colegas de Francisco. “Mas porquê, porque motivo morre um jovem, se Cristo é imensamente misericordioso e não quer o nosso sofrimento?” A resposta, mística, quiçá filosófica, encontrava-se na única saída possível, capaz de amenizar tamanha dor: na fé. Ali, entrava-se no caminho do mistério. O da fé. Os cristãos celebram a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa. Se aquelas palavras não acabaram com a dor, consolavam-na e aconchegavam-na. Até porque, como frisou o padre Fiel, a chama da vela que estava sobre o altar representa a vida, e a vida é sempre maior que o tamanho da cruz, também ali presente, que representa a morte. Mesmo para os não crentes a simbologia tangente das palavras pascais são reveladoras e repletas de significado, particularmente agora, porque vivemos um tempo de medo e de incerteza. Somos peões indefesos no meio de uma espécie de guerra global. Não sabemos quando uma qualquer bomba pode rebentar no caminho que faz parte da nossa rotina, do nosso percurso diário. A selvática onda de terror que varre a Europa, estremecendo capitais e estoirando com aeroportos, promovida por um grupo que existe com o objetivo de nos destruir, em nome de um fanatismo religioso inqualificável, está a mudar as nossas vidas. A brutalidade infligida nos massacres do “Daesh” a inocentes a quem lhes é cortado o pescoço, por exemplo, leva-nos a um exercício doloroso, a um sem número de dúvidas e à certeza de que já não há lugares seguros no mundo, e que estamos à mercê de organizações e indivíduos que não respeitam os nossos valores. O impacto que esta onde está a ter nas nossas mentes é demolidora. Mas temos de ser capazes de expurgar este mal. E enquanto não se encontra um meio eficaz que parta a espinha dorsal destes movimentos, acreditemos que a luz da vela, que tem de ser sempre maior que o tamanho da cruz, independentemente da crença religiosa de cada um de nós, prevaleça. A chama da paz simbolizada por aquela simples vela colocada na igreja do Colégio tem de vencer a escuridão e a morte do “calvário”, que se nos depara há tempo de mais. Apesar de sabermos que é quase impossível estancar o terror perpetrado e que a segurança universal está infalivelmente abalada e que jamais regressará aos parâmetros do passado, não podemos sucumbir ao medo. Temos de ir mais além, em busca e em nome da vida. P.S.: Regressar ao Lido é regressar aos verões da nossa infância e da nossa adolescência. Aos dias ali passados, ao sol, entre mergulhos e competições na água com os amigos, as idas ao ilhéu e as tentativas (frustradas) de igualar aqueles golfinhos voadores que se atiravam de cabeça das rochas mais altas. E, depois, os waffles, com doce, chantilly ou polvilhados de açúcar em pó. Os escaldões estivais e as tardes enormes de sol. É bom voltar ao Lido, mesmo que não seja o “nosso” Lido. Roberto Ferreira

Somos peões indefesos no meio de uma espécie de guerra global

Domingo de Páscoa. Igreja do Colégio, na praça do Município. O cónego Fiel de Sousa chama para o altar familiares e amigos do senhor Sardinha e do jovem Francisco, ambos falecidos na semana anterior. Tenta consolá-los da melhor forma, apoiando-se no calor humano emanado pelos crentes presentes naquele magnífico templo do centro da nossa cidade. Se o senhor Sardinha morrera já com uma idade avançada, Francisco partiu na flor da idade. Naquele instante e por mais voltas que desse, o atencioso sacerdote esbarra sempre na questão que atormentava aqueles jovens pais, os irmãos e os colegas de Francisco. “Mas porquê, porque motivo morre um jovem, se Cristo é imensamente misericordioso e não quer o nosso sofrimento?” A resposta, mística, quiçá filosófica, encontrava-se na única saída possível, capaz de amenizar tamanha dor: na fé. Ali, entrava-se no caminho do mistério. O da fé. Os cristãos celebram a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa. Se aquelas palavras não acabaram com a dor, consolavam-na e aconchegavam-na. Até porque, como frisou o padre Fiel, a chama da vela que estava sobre o altar representa a vida, e a vida é sempre maior que o tamanho da cruz, também ali presente, que representa a morte. Mesmo para os não crentes a simbologia tangente das palavras pascais são reveladoras e repletas de significado, particularmente agora, porque vivemos um tempo de medo e de incerteza. Somos peões indefesos no meio de uma espécie de guerra global. Não sabemos quando uma qualquer bomba pode rebentar no caminho que faz parte da nossa rotina, do nosso percurso diário. A selvática onda de terror que varre a Europa, estremecendo capitais e estoirando com aeroportos, promovida por um grupo que existe com o objetivo de nos destruir, em nome de um fanatismo religioso inqualificável, está a mudar as nossas vidas. A brutalidade infligida nos massacres do “Daesh” a inocentes a quem lhes é cortado o pescoço, por exemplo, leva-nos a um exercício doloroso, a um sem número de dúvidas e à certeza de que já não há lugares seguros no mundo, e que estamos à mercê de organizações e indivíduos que não respeitam os nossos valores. O impacto que esta onde está a ter nas nossas mentes é demolidora. Mas temos de ser capazes de expurgar este mal. E enquanto não se encontra um meio eficaz que parta a espinha dorsal destes movimentos, acreditemos que a luz da vela, que tem de ser sempre maior que o tamanho da cruz, independentemente da crença religiosa de cada um de nós, prevaleça. A chama da paz simbolizada por aquela simples vela colocada na igreja do Colégio tem de vencer a escuridão e a morte do “calvário”, que se nos depara há tempo de mais. Apesar de sabermos que é quase impossível estancar o terror perpetrado e que a segurança universal está infalivelmente abalada e que jamais regressará aos parâmetros do passado, não podemos sucumbir ao medo. Temos de ir mais além, em busca e em nome da vida. P.S.: Regressar ao Lido é regressar aos verões da nossa infância e da nossa adolescência. Aos dias ali passados, ao sol, entre mergulhos e competições na água com os amigos, as idas ao ilhéu e as tentativas (frustradas) de igualar aqueles golfinhos voadores que se atiravam de cabeça das rochas mais altas. E, depois, os waffles, com doce, chantilly ou polvilhados de açúcar em pó. Os escaldões estivais e as tardes enormes de sol. É bom voltar ao Lido, mesmo que não seja o “nosso” Lido.

Roberto Ferreira