O projecto europeu nasceu de uma mistura de vontade e necessidade. Já ninguém suportava guerras, destruição e miséria. A ideia de uma aliança entre países outrora inimigos para atacar apenas e só o que de mau e ineficiente existia entre os mesmos parecia demasiado boa para ser verdade, independentemente da sua concretização federalista ou unionista. Era a solução para alcançar finalmente a paz, assim como para incentivar todo um sector económico que já vivera melhores dias. Era o sonho europeu.

Ora, diz-se - com razão - que a vontade move montanhas e a necessidade aguça o engenho. Por isso é que só um pessimista nato se deixou surpreender pelo aparecimento de algo como a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que deu início a toda uma sequência de actos e acordos que culminaram no que hoje conhecemos como União Europeia.

O problema é precisamente esse, no entanto. O que hoje conhecemos como União Europeia não é bem aquilo que se queria que fosse. Já não se trata de um ideal político e económico ingénuo de cooperação e igualdade. Está bem claro que vivemos numa Europa a dois tempos, e parece que não estamos no grupo dos populares, sabe-se lá porquê.

As campainhas soam de todos os lados. Cameron não facilita no Brexit como forma de pressionar um estatuto distinto dos demais membros da União. Aliás, digno de marcação na agenda de qualquer cidadão europeu será o dia 23 Junho de 2016, em que o Reino Unido vota no referendo que dita não só o futuro de Cameron, como também do projecto europeu: a permanência do Reino Unido na União Europeia. Tendo em conta a crise do euro, assim como a recente crise dos refugiados, não me espantaria que o resultado fosse um “não”. As previsões são até agora inconclusivas. Não me espantaria também ver o Reino Unido perder tanto como a própria União Europeia, caso o “não” ganhe.

Por falar de refugiados, mais de um milhão deles entrou na Europa apenas em 2015. Algo que está a levantar sérias questões sobre a capacidade de manutenção do Espaço Schengen tal como conhecemos. A ideia é trazer de volta algum tipo de controlo fronteiriço entre os Estados-Membros, deitando por terra a tão vantajosa zona livre de circulação de pessoas e mercadorias.

Aliando estes problemas à supremacia e determinação dos objectivos comuns de toda a comunidade europeia por um conjunto restrito e desigual de membros, dos atentados de Paris - que demonstraram que a segurança do espaço europeu carece de uma atenção redobrada ¬e, em última análise, do próprio fracasso do euro, é perceptível que a mentalidade europeia está diferente.

Vivemos momentos que ficarão na história para sempre e eu tenho a esperança que seja não só pelo facto da montanha se ter movido, como também do engenho se ter aguçado.

Gonçalo Freitas de Sousa, Advogado Estagiário