Nesta semana os cristãos celebram a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. É considerada esta semana na gíria popular de Maior. Precisamente por causa do acontecimento que a compõe. É uma repetição, coisa estranha para o nosso tempo, que gosta de novidades todos os dias. A Páscoa é o acontecimento de Jesus, que para além do que tem de divino para os crentes, tem muito de humano, que devia importar a todos meditar. Não tivesse reconhecido Teixeira de Pascoaes que «as almas mais ávidas de Deus são as heréticas ou aflitas». Pode o mundo não estar cheio de Deus, mas de almas heréticas e aflitas sobeja.

Vamos fixar-nos este ano nalguns exemplos dos instrumentos utilizados na Paixão e Morte de Jesus. Temos: cravos e a cruz, coroa de espinhos, o Sudário, a escada e a tabuleta com a inscrição JNRJ… - Serviram tantas vezes para encegueirar ainda mais os devotos e outras vezes foram objeto abjeto para comercializar a fé e o céu. Quiçá esteja a faltar fazer-se uma leitura que ajudasse a condimentara a vida na esperança e a libertar tanta gente massacrada com os mais variados e sofisticados instrumentos de sofrimento e de morte. Os da Paixão de Cristão são simbólicos e muito podem revelar sobre o que comanda a humanidade quando é tão barbara para si mesma.

Cravos e a cruz: os instrumentos mais badalados. São eles que suspenderão o corpo de Jesus fixado no madeiro cruzado. Mas, também são o símbolo das palavras que se cravam na carne de tanta gente que é humilhada, enxovalhada nesta vida com palavras caluniosas e insultuosas sobre o seu bom nome e dignidade. Tudo o que é palavreado ruim que maquina a mentira como caminho para brilhar sob o preço da humilhação de alguém, são cravos que se espetam na carne dos nossos semelhantes. A cruz de tanta gente é por vezes tão pesada e ninguém se importa com isso.

Coroa de espinhos: outra relíquia famosíssima e que a tradição arrodilhou com engenho sobre a cabeça do Cristo com maior ou menor expressividade. É também um instrumento de tortura que denuncia o quanto o mundo está cheio de coroas espinhosas enfiadas na cabeça de tanta gente a sangrar de preocupação. Mais ainda denuncia a coroa de espinhos que esta vida está cheia de ardilosas artimanhas que vão semeando a depressão e todas as doenças do foro psicológico tão típicas do nosso tempo. Eles podem ser a traição no matrimónio, a luta desenfreada para subir nas carreiras profissionais, os maus tratos nas crianças, a violência doméstica, a política da mentira, a carga de impostos sobre os cidadãos indefesos, o desemprego e toda a injustiça que faz do nosso mundo um verdadeiro inferno. As outras coroas que enfeitam as cabeças de reis e rainhas quilatadas a ouro e prata com pedras preciosas são tantas vezes o sangue, a dor, a angústia e a morte de povos inteiros.

Sudário: Importa para nós hoje salientar que o Sudário que limpou o rosto suado e ensanguentado de Jesus, imprimiu um rosto com tanta grandeza e serenidade naquele rosto, que nos revela ao mesmo tempo tanto perdão e tanta ternura que não é dado a homem algum inventar. Ficou como sendo a face de Jesus. Neste sentido, vamos também descobrir o rosto que imprime sofrimento desmedido, porque a batalha da vida tem sido cruel com filhos, esposo, esposa, vizinhos, colegas de trabalho e com a morte porque faltou cuidados elementares nos hospitais para tratar quem estava doente. A vida está cheia de impressões de rostos que vertem sangue e tristeza porque a vida é uma madrasta implacável.

Escada: Trata-se da escada do Palácio de Pôncio Pilatos, pela qual subiu Jesus quando foi apresentado à população ululante depois da Flagelação: - o «Ecce Homo».

Como não imaginar o Filho de Deus a subir os degraus pé ante pé todo ensanguentado para ser apresentado como um troféu de caça ao povo cego que se diverte perante as artimanhas dos seus governantes… Esta visão é bem reveladora de como é fácil sair vencedora a intriga, a mentira e como se pode conduzir um povo a anunciar promessa sem que nunca as cumpra ou até mesmo fazendo o seu contrário. As escadas deste mundo estão cheias de sangue de vítimas de tantos que se tomaram de poderosos e construíram todas as formas de domínio sobre os demais para se ajeitarem.

A tabuleta com a inscrição JNRJ: inscrição «Jesus Nazareno Rei dos Judeus» - em hebraico, grego e latim - mandada fixar por Pilatos na Cruz do Salvador. Muito bem revelador de como o mundo está cheio de inscrições malévolas que para chegar às piores metas tudo se inscreve despudoradamente contra a vida e contra a dignidade dos nossos semelhantes. Inscreve o bem onde reina o mal. Com isto atrevo-me a afixar aqui a seguinte inscrição: «aquilo que não queres para ti não faças para os outros». É por causa disto que se repete todos os anos a Paixão e Morte de Jesus Cristo.

José Luís Rodrigues