A primeira vez que saí da Madeira para competir em prancha à vela, foi em 1986 e, por coincidência, precisamente na terra dos meus pais. O campeonato nacional desse ano teve como base a ilha do Faial, onde o meu pai nasceu e cresceu, e o nosso campo de regatas tinha como pano de fundo a majestosa ilha do Pico, que viu a minha mãe nascer. Contrariando Vitorino Nemésio, não houve mau tempo no canal e a competição ficou caracterizada por vento fraco. Os meus 43 kg da altura, deram algumas dores de cabeça a velejadores bem mais experientes. No final, foi um domínio total madeirense. Francisco Rosa sagrou-se campeão nacional na categoria rainha, enquanto Miguel Sá vencia na outra categoria presente. Quando, depois da entrega de prémios, nos encontramos todos no Peter’s Café, uns a encharcarem-se no famoso gin tónico da casa, eu a devorar tartes de maçã, dei por mim a ouvir histórias fascinantes. De marinheiros, de vela, de rivalidades entre ilhas, de competições. Era um mundo fantástico e, de repente, eu também fazia parte dele! No dia seguinte, foi organizado um triatlo. Natação, windsurf e corrida. Aproveitando o vento muito fraco, associado à ressaca da maioria dos meus adversários, dei por mim a correr para a meta isolado. Então surgiram as perguntas: “Como é possível? Vai mesmo, mesmo, acontecer! Porquê eu? Porquê?” Perguntas estas que se diluíram quando recebia, orgulhoso, uma taça quase do meu tamanho! Essas questões evoluíram. Quem sou eu? Qual o meu papel aqui? Mais tarde viria a compreender Zaratustra. Assim falava: “Só acredito num Deus que saiba dançar!” Bem tentei, dançar ao ritmo do vento, embalado pelas ondas, guiado pelas nuvens. No entanto foi Fernando Pessoa quem, de uma forma magistralmente simples, me ajudou a conhecê-Lo melhor. Mas foi preciso abandonar os livros, sentar-me e parar o pensamento, para apreender a realidade tal como ela é, ainda que em fugazes vislumbres. Hoje, continuo a sentir-me como uma criança, que acorda todos os dias a pensar no que irá descobrir de novo. Bem escrevia Miguel Esteves Cardoso: “Ser criança é saber secretamente que não se sabe nada.” Todos os dias, o mar mostra-me que ele tem razão!
João Rodrigues Atleta olímpico