“Presidente morto, Presidente posto!” Não vou, obviamente, até porque seria deselegante, dizer que Cavaco Silva, Aníbal, foi um mau Presidente da República. Aliás, quem sou eu, quem é qualquer cidadão, para criticar um outro que seja eleito por maioria absoluta de entre os que se dignam – e são cada vez menos – ir votar. É muito hábito nosso, dos portugueses, zurzir em quem sai, em quem está de costas, em quem já se não pode defender. Comparar Marcelo e Aníbal é como comparar – sem qualquer intuito menor - o Papa Bento XVI com o Papa Francisco. Bento XVI desempenhou a sua “função” como poucos. Mas não foi um Papa simpático. Não envolveu os católicos, não foi um Papa de afectos. Francisco, o Papa mais amado soube fazer-se amar. Sendo Argentino conseguiu mesmo que os restantes latino americanos o adorem. Coisa rara. Não será um Papa com a profundidade de pensamento de Bento XVI. Não será um Papa tão dogmático como o seu antecessor. Mas é um papa de afectos. Um Papa deste tempo. Aníbal Cavaco Silva disse ter agido sempre na defesa dos interesses dos portugueses. Acredito que tenha agido pensando que o estava a fazer. Mesmo quando foi fracturante. Mesmo até ao fim, com a questão das promulgações que fez “obrigado”. Aníbal Cavaco Silva não tinha “jogo de cintura”. Tinha que ter? Noutros tempos, não! No tempo que vivemos, que é de confrontos e de crises a todos os níveis, sim. Mas, foi Aníbal um mau presidente? Foi um presidente que cumpriu. Não é uma figura que deixe saudades, entusiasmos, mas não deixará ódios, a não ser entre os extremistas de esquerda que não aplaudiram o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda bem que assim foi. Aníbal nunca foi o meu Presidente, até por razões que não virão ao caso. Mas foi um Presidente num tempo muito difícil, contendo loucuras socráticas, momentos de crispação na justiça, crise económica profunda, recrudescer do desemprego e da pobreza. Não soube ser simpático? Não! Mas chegamos ao fim dos seus dias e se, mesmo aqueles que como eu não se identificam com ele, pensarmos bem, Aníbal cumpriu. De Marcelo, um homem com outro mundo, com outra preparação, com outra dimensão humana, espera-se que entusiasme, que seja amado, que restitua o orgulho a este povo que já “deu tantos mundos ao mundo”. Quanto a cumprir, obviamente que cumprirá. Mas Marcelo tem tudo para ser o primeiro Presidente da República do período da democracia madura. Do período em que se enterre definitivamente o PREC e quem dele vive. Não aplaudir Marcelo no seu discurso de posse é cegueira mental. Não aplaudir Marcelo pela ida à Mesquita Central de Lisboa é cegueira mental. Ser sectário, como foram os deputados do PC, do Bloco de Esquerda e do PEV é assim como ser terrorista. Obviamente que Marcelo saberá ser Presidente também desses portugueses.

António Cunha Vaz