O trabalho é uma fonte de sentido para a existência humana e entende-se por qualquer ocupação quer seja física ou inteletual. Cada vez mais, no mundo em que a competitividade é atroz, viver torna-se um ato heróico em que todos somos vencedores ainda que não seja pela ausência de saúde física e mental. A sociedade e a conjuntura financeira atual obriga-nos a pensar para além de nós mesmos. Sabendo que a reforma está cada vez mais tardia pela obrigatoriedade de mais anos de serviço, torna-se incomportável a presença de um trabalhador ativo e vigoroso. Aqui por um lado temos a sabedoria e experiências, por outro a incapacidade de realização do trabalho exigido. A impossibilidade de pagar aposentações a um número cada vez maior de pessoas, e a escassez de resposta por parte dos nossos governantes, torna-se inevitável o aumento da idade de reforma, deixando-os de mãos atadas e ao povo de correntes aos pés. Com o avançar dos anos o trabalho não será, em muitos casos uma fonte de prazer, mas sim um ato penoso. Desta forma o mercado de trabalho fica mais fechado para os jovens e a qualidade diminui já que os anos reduzem as boas condições de saúde. O trabalho “ forçado “ dos idosos será semelhante ao trabalho infantil? Alguns aspectos são indicativos de como o trabalho poderá condicionar a nossa saúde. Assim como exemplo temos: i)pavor da 2ª feira e o desejo pela 6ª feira; ii) criação de hábitos pouco saudáveis, sem uma refeição decente e com o prolongar do stress depois do horário laboral; iii) aceitar ser tratado com falta de respeito; iv) presença de uma negatividade contagiosa; v) “tudo para ontem”. As emergências são sinal de desorganização e levam a um ambiente de trabalho pouco saudável.
As projeções estimam que Portugal pode tornar-se em 2050, o segundo país mais envelhecido do mundo, a seguir ao Japão. Neste momento temos a sétima população mais envelhecida no mundo, ao lado de países como a Dinamarca, Alemanha e França. Provavelmente a questão do acesso à reforma deixará de se poder colocar a menos que se verifique um grande aumento na natalidade e na capacidade de fixar os jovens em Portugal. Há uma via possível se não se verificar a renovação populacional - essa via será a constituição de juntas médicas com capacidades decisórias acrescidas que possam aposentar aqueles que estão manifestamente incapazes para o trabalho. Mais do que procurar sentido no trabalho, temos de pensar que o problema populacional é hoje muito mais grave e não parece despertar interesse real por parte das entidades com capacidade de decisão. Por mais que o idoso tente se manter em “forma” há que (Re)pensar que a reforma deve ser para cada um de nós, um tempo prazeroso para descansar e usufruir com dignidade de cada ruga de cada lembrança e memória que o tempo não apagou.
João Miguel Freitas, Médico