O tema não é novo e a discussão não vem de agora. Estuda-se nas escolas e existem manuais com que todos aqueles que estudaram Ciência Económica já se depararam. Há uns anos atrás, num programa de mestrado em Gestão Internacional que frequentei, não obstante tratar-se de um grupo muito heterogéneo, com alunos de várias nacionalidades e diferentes culturas, a questão surgiu naturalmente quando um dos meus colegas, italiano por sinal, disse que estava ali porque acreditava na óptica de gestão privada no sector público, onde desempenhava funções.
Esta semana, na cerimónia de assinatura do memorando de entendimento para a TAP, um insatisfeito David Neeleman dizia que com 50% do capital privado a empresa não era considerada pública, e confessava que essa tinha sido condição necessária para se manter no negócio. Por outro lado, olhando à situação recente da banca portuguesa, depois dos casos BPN, BPP, BES e Banif, acredito que ninguém pode afirmar taxativamente que o privado gere melhor que o público, ou vice-versa.
A diferenciação entre gestão pública e gestão privada é normalmente feita, apenas e só, pela estrutura de capital, não se discutindo o essencial, a gestão em si. Julgo que na génese da confusão está, permitam-me chamar-lhe assim, um dos mitos da Economia: o dinheiro público. Digo mito porque efectivamente é coisa que não existe. Dizer-se que se gere a coisa pública com dinheiros públicos é esquecer-se do que os nossos amigos anglo-saxónicos tão bem apelidam de “tax payers money”, ou seja dinheiro dos contribuintes. É verdade que existem regras e legislação próprias para a administração pública, bem como funções de natureza económica reservadas em exclusivo aos poderes públicos, mas o dinheiro, esse, tem uma única origem, e a aplicação do mesmo determina de forma decisiva a vida de pessoas a organizações.
Mais do que pública ou privada, a gestão quer-se competente, rigorosa, eficiente e eficaz. Nesse sentido, mais importante do que a estrutura de capital, é a forma como se definem estratégias, planos de acção e orçamentos, entre outros. A gestão tem de ser responsável e, não menos importante, responsabilizada pelos resultados que obtém e apresenta. Na devida altura, e em sede própria, caberá à estrutura accionista avaliar essa gestão, seja o capital público ou privado.
Por estas razões, acredito que o meu colega rapidamente se apercebeu que ali estava, não para saber como se geriam empresas no sector privado, mas sim, para ganhar novas competências e ferramentas de gestão que lhe permitiram evoluir enquanto profissional, desempenhando ainda melhor as funções que lhe foram confiadas.
Sérgio Gonçalves